2 de abril de 2007

Conversas parvinhas, saudades mesquinhas

- Iá, é isso, opa, é qué memo assim, ó espanhol, grita o gordo, e ri-se, ahahahaha, ohohohoho, o que o faz arrotar estrondosamente, o que o faz rir ainda mais, e assim sucessivamente…até que…
- Ehhhhh, pára com isso, é nojento, diz a miúda gira enquanto puxa o decote da blusa em Lycra um nada para cima.
- Mas afinal tu és espanhol ou português?, pergunta a miúda feia.
O centro das atenções era o “Panho”, um português filho de mãe espanhola, que se veio a saber ter acabado de regressar de um mês nos arredores de Madrid, na casa da avó.
O cenário, um café num centro comercial do Saldanha. Livros, cadernos e copos de cola e sumo natural de laranja em cima da mesa.
-Opa, parem com isso, a minha mãe é que é espanhola, eu sou português. Nasci aqui, o meu ídolo é o Camões, não sei nada da História de Espanha e não falo espanhol, responde o interrogado, de rajada.
- Ah ah…ia ia, fiarmiacia ah ah ah, diz o gordo.
- Mas conheces Cervantes?, pergunta a miúda feia, e ri-se.
Pausa de segundos, em que os dois rapazes bebem um golo de Coca-Cola e elas um golo de sumo de laranja.
- Mas conheces Cervantes?, insiste a miúda feia.
– Ia, já ouvi dizer, responde o Panho, ahahaha.
- Eu também conheço, é o que escreveu o Quixote, diz a miúda gira.
A miúda feia pára de rir e diz que o livro se chama “D. Quixote” e não “O Quixote”, mas o Panho ignora-a e responde antes à miúda gira:
- Ia, é o Quixote é, ahahahah.
- Ah, iá. Mas fala lá em espanhol, ahahah, diz o gordo outra vez.
- Deixa lá o Panho, ele não quer, pronto, diz a miúda gira. Afinal, a miúda gira era a miúda do Panho, porque o beija e faz-lhe festas no cabelo.
Isto contado, não tem gracinha nenhuma. Visto também não teve, acreditem. Foi até bastante deprimente. Mas aqui a cena (iá, tás a ver?), o “point” é outro. Os risos e a conversa esquizo de café daqueles quatro serviram como ruído de fundo aos sentimentos mesquinhos com que eu os observava. Primeiro ano de faculdade, livros na mão, despretensiosos e rindo de si próprios, parvinhos.
É verdade que não tenho muitas saudades da maioria do tempo que passei na faculdade, mas às vezes, só às vezes, apetecia-me voltar àqueles tempos de descoberta e de gargalhadas parvas e incontroláveis por tudo e por nada.

6 comentários:

fogacho disse...

eras qual tu??

touriga franca disse...

Eia, ó fogacho, o que é que achas?! Ela era a gira e inteligente, claro!!!

Já eu, continuo parvinha, mas não tenho saudades dos tempos da faculdade...

Palomino disse...

"Os risos e a conversa esquizo..."; "gargalhadas parvas e incontroláveis por tudo e por nada."- felizmente, estas são coisas que estão sempre ao nosso alcance. Nem que seja preciso chamar o Frei Angelico ou a fina flor de Pias...;-)

trincadeira disse...

Bem, não sou tua mãe fogacho(livra) mas conheço-te tão bem que já sabia que era isso que ias perguntar. Tás a ficar muito previsível eheheheh. Por isso já tinha uma resposta: Era gira mas timida :o) ao contrário de agora, que tou feia comás portas mas lata não me falta lol

trincadeira disse...

Obrigadinha por revelares que sou uma bebada incorrigivel Palomino. Sempre meu amigo ;o)

trincadeira disse...

Ai obrigada Touriga :o). O melhor tempo das nossas vidas é sempre o tempo presente, já dizia alguém que agora não me lembro!!!