2 de março de 2007

O tio Esvaldo, a mulher dele e a sobrinha



“Perrdi tudo ô cara! Perrdi tudo… Mi vê aí um uísqui”, atirou o brasuca de cabelos brancos ao barman do hotel. O tom era desesperado, de um homem que, enfim, só podia ter perdido realmente tudo. Instalada numa mesa mais ao canto, eu podia ouvir nas calmas os desabafos do homem. Fui mentalmente construindo a história. Coitado, os negócios correram-lhe mal cá, deve ter investido muito e perdeu tudo. Ou, se calhar, veio cá de férias, foi ao casino, bebeu umas a mais, apostou e perdeu tudo. Ou perdeu a carteira com tudo lá dentro. Que teria sido? O barman, homem de 70 anos, curvado pelo peso de anos a servir copos de licores e uísques ao balcão, ouvia e abanava a cabeça em sinal de compreensão e pena. E reparei que em vez do “uisqui”, serviu-lhe um café. O brasileiro não deve ter dado pela diferença, porque bebeu sem reclamar, em silêncio, de olhar um bocado esgazeado fixo na janela. Repetiu mais umas vezes a mesma frase “perdi tudo” e eu comecei a ficar com comichões no estômago. Fui ao balcão, pedi um chá ao velhote, ele assentou que sim com um sorriso e esperei. A minha ideia era que o brasileiro metesse conversa, que me desse a deixa para eu lhe perguntar mas afinal o que é que o senhor perdeu. E assim foi: - “Cê é portuguesa, né?”


- “Sou sim”, respondi, e sorri-lhe na expectativa.


- “Hoje eu perdi tudo” …o olhar esgazeado continuava e eu esperei.


- “Hoje eu perdi minha mulher...”, e levou as mãos à cabeça.


Fiquei martirizada por ter sido tão materialista, primeiro. Afinal o homem perdeu alguém que amava, não tinha nada a ver com grana. Depois disto, o barman pôs-me à frente um café. Eu, que estava atordoada com a história do homem (bem feita, quem manda meter-me na vida dos outros?!), fiquei depois confusa. Eu achava que tinha pedido um chá branco…mas bebi o café mantendo uma espécie de silêncio respeitoso. Como se a notícia de uma morte tão profundamente sentida por alguém que está a um metro de distância impusesse esse respeito. O barman, que afinal não era surdo nem nada, saiu discretamente. Voltou com uma mulher, uma espaventosa brasileira de pouco mais de vinte anos, cabelos louros, “necessaire” dourado na mão, muito bonita e também muito ordinária.


- Ô merda, cê vem aqui, não tou mais ti aguentando. Qui loucura, cara! Quero ir embora. Vai pagar essa merda de hotéu e vamo embora logo ô velho”.


Eu ainda estava a assimilar e ela resolveu desabafar comigo.


- Ele ti incomodou? Cê mi disculpa viu, é meu tio qui está muito doente. Nós veio a Portugáu pra ver se curava ele, mais num tem jeito.


- Não me incomodou nada. Tive pena, ele disse que a mulher tinha morrido.


- Poisé. O meu tio Esvaldo (!) faz isso toda a hora, mas é mintchira. Ele tá ficando louco, o coitado. A mulher dele morreu faz um tempão já. Tá morta e enterrada lá em São Paulo faz mais de deiz ano já. Pra você ver, eu me preocupo com a saúde di meu tio.


Despachei rapidamente a garota de programa e fui-me sentar um bocado surpreendida por a historinha do tio que viaja com sua sobrinha ainda ser coisa corrente nos dias que correm.





2 comentários:

fogacho disse...

tens de reequacionar esses teus relacionamentos. muuitoooo underground

sunny days disse...

Não posso revelar o nome do Hotel em que a história se passou para proteger a identidade dos seus protagonistas.