27 de fevereiro de 2007

Pernas cansadas, charutadas e pianadas

Quiseram os senhores de fato que a malta que “anda por fora” tivesse acesso à wireless da PT nos respectivos portáteis para mais rapidamente “despachar serviço”. Por causa disso, ando sempre com um desdobrável azul que me indica os locais onde posso ter acesso à dita net rápida sem fios nesta linda cidade de Lisboa.
Ora, excluindo por motivos óbvios as estações de serviço da Galp, os CTT, os cinemas Lusomundo e o Holmes Place, restam-me os mais de 40 hotéis, seis centros comerciais e sete cafés. Também há em três ou quatro jardins, mas enquanto não instalarem uma tomada nas plantinhas, não poderei ali ligar o meu PC, que a máquina anda com a bateria fraca.
Depois deste bonito intróito que serviu apenas para situar os leitores, passo ao que interessa. Hoje, mandei serviço do Tivoli, um cinco estrelas em plena Avenida da Liberdade, com um átrio bastante grande, cadeirões e sofás confortáveis ocupados por homens de negócios fumando charuto e descontraídos turistas de cabelo louro.
Entre gente para trás e para a frente ao telemóvel, conversas acesas sobre dossiers certamente de importância suprema, um casal de namorados a descansar as pernas antes do jantar e uns vinte engenheiros das telecomunicações (certezinha que eram) em grandes uísques e charutos (paga a empresa, certezinha) ninguém se dignou a olhar nem que fosse por instantes para o pianista que se afadigava a dar música àquele ambiente.
Eis que, depois de uma hora de grandes clássicos mal-amanhados, o pianista levanta-se devagar, arruma o banco no lugar, fecha a pasta com as folhas de música, dá uma olhadela rápida ao átrio enquanto abotoa o casaco, e pira-se.
A diferença, agora que se foi, é ouvirem-se melhor as gargalhadas dos turistas, os tlins dos copos nas mesas, e distinguirem-se o inglês e o espanhol das conversas.
O ambiente não melhorou por ele ali estar, nem piorou por se ir embora. Aqui está uma peça que gostava de fazer. Porque é que há pianadas nos átrios de hotéis e centros comerciais? Quem é que disse que a música ambiente é uma boa ideia? Porquê um pianista e não um violinista ou até um flautista? A plateia gosta? Os clientes queixam-se, aplaudem ou ignoram? O pianista aprecia o que faz? Porquê? No átrio do cinco estrelas da Avenida ou junto dos restaurantes no Atrium do Saldanha, os pianistas são camaleões. Confundem-se com o ambiente, não fazem mal nem agridem. Percebo que a sua função é serem invisíveis enquanto deixam sair a música. Mas…who cares?

1 comentário:

fogacho disse...

acreditas que já estive vai-não-vai para tocar nesse piano branco-marfim? se tivesse com os copos, marchava na hora