17 de fevereiro de 2008

Atentado urbanístico ao nível do comércio tradicional*


A minha mercearia aburguesou-se. A D. Lurdes decidiu fazer umas obras de “melhoramento”. Substituiu o balcão de madeira escura e pedra mármore por um de plástico e alumínios. Comprou uns cestos de plástico cinzento e vermelho tipo “mini-mercado”. Substituiu os baldes cheios de água fria onde refrescavam as hortaliças por um frigorífico! Os molhos de espinafres e de nabiças vêm agora embalados em sacos de plástico e têm sempre aquele aspecto fresquinho independentemente da hora do dia. Não há folhas que murchem naquele super-frigorífico…
Quem murchou fui eu. Eu devia ter adivinhado. As mudanças foram aos poucos. Primeiro foi o presunto. Ainda aqui há uns meses, o presunto era cortado na hora, como nós quiséssemos, às fatias, inteiro, grande ou pequeno. Agora quem quer presunto leva do embalado. Antes havia só uma marca de queijo (daquele para fatiar), o preferido pela maioria das clientes, e o fiambre era sempre do mesmo, do “melhor”. Com o balcão novo vieram aquelas variedades todas embaladas e já fatiadas.
Aquilo é plástico e alumínio e variedade a mais para os meus delicados olhos. Qualquer dia tanto faz ir ali como a um super-mercado confuso qualquer. Aquelas mudanças fizeram confusão e não foi só a mim. Já ouvi uma ou duas clientes a olhar com ar de dúvida para aqueles super molhos de nabiças e espinafres empertigados nos seus celofanes transparentes.
Primeiro foi uma das “habituées” da terceira idade.
- Ó Lurdes, isto presta para alguma coisa?
- Então não vê que sim, fresquinhos!
- Hum…
Claro, a velhota rendeu-se à evidência.
De outra vez foi uma empregada de alguém que tinha voltado à loja para devolver os espinafres.
- A minha patroa quer dos normais, não quer estes no plástico.
Pouco surpreendida e depois de um suspiro, a D. Lurdes pegou no telemóvel (vejam bem!) e ligou um número.
- Tou sim? É a Lurdes aqui da mercearia. Ò Drª, então a sua rapariga diz que não gostou do que eu lhe mandei?!
-… (não consegui ouvir, apesar de ter tentado)
- Mas agora vem tudo assim. E são frescos, então não viu?
- …
- Agora não tem terra porque são lavados antes de lhes porem o plástico. Prefere-os com terra?
- …
- É do que eu gasto na minha casa, e são de confiança, pode ficar descansada. Agora só tenho assim Drªa, mas experimente e depois diga-me.

Apesar de tudo, continua a haver razões para lá ir. Sobretudo a fruta, é sempre muito óptima como diria uma amiga minha. Os queijinhos frescos, o requeijão, as morcelas de arroz, as hortaliças…enfim, são boas, e as azeitonas que sabem a azeitonas.
Quando ela substituir o balde das azeitonas verdadeiras por aqueles frascos com bolas pretas gigantes que não sabem a nada, juro que nunca mais lá ponho os pés.


*Infelizmente esta expressão genial não é minha. Ouvi-a uma vez numas férias num restaurante algarvio. O homem estava à espera para almoçar há duas horas e lá desabafou bem alto que era inadmissível e que "isto é o caos urbanístico ao nível da restauração". Eu adaptei.

1 comentário:

fogacho disse...

... ou o caos logístico ao nível da purificação. ASA(E)R!!