11 de março de 2008

lovebirds



o filme não é nada de especial.
mas vale a pena só pelas cenas e pelos diálogos de fernando lopes e rogério samora. imperdível.
o filme de bruno de almeida estreia quinta-feira.

8 de março de 2008

Viva emoções num ATM perto de si

Ok, precisamos dos bancos, não há nada a fazer. Mas era preciso serem sádicos? Qualquer coisa me dizia para tirar o saldo no multibanco. Digamos as piores expectativas se confirmaram. O saldo estava tão em baixo que tive praticamente um ataque. (What the fuck?!) mas ainda é dia sete!!! Levei a mão ao peito para me acalmar, e fiquei tão atarantada que cambaleei um pouco. (Holly shit!). Mais calma, voltei a ler o papelito na vã esperança de ter visto mal e reparei na PUB sádica: "Seja cliente, viva emoções". É, não é? (the bastards!). A Caixa promete, cumpre e ainda nos presenteia com ironias finas.

6 de março de 2008

...como as coisas que vivem

Imagino que os super-hiper-mega-mercados dariam histórias bem mais emocionantes. Cada corredor seu segredo, cada repositora de patins uma aventura. Mas a mim calha-me melhor a mercearia da Rua Gomes Freire, perdoem a insistência. Já lhe achei mais piada, antes do balcão modernaço e das nabiças embrulhadas em celofane como se fossem rosas senhor. Há reveses na vida que temos que superar, não é verdade? O “progresso” é um deles. Deixei de lá ir por quinze dias em protesto por os meus espinafres já não virem com terra, mas ultrapassei a coisa. Comi uns chocolates para arribar e ganhei coragem. Fui lá hoje e quem é que lá estava? Nada mais nada menos que A Velha. A desaparecida senhora, a mãe da D. Lurdes. A verdadeira dona da casa. A genuína merceeira. Foi com profunda alegria que a vi ali sentada, sufocando por completo o banquinho baixo de madeira. Entrei, como sempre, às pressas, fazendo o meu teatro de dona de casa atarefada que não sou capaz de ser. E estaquei ali mesmo, frente aos seus feios olhos grandes observando a vida através de mim. Não sei como se chama, acho que prefiro não saber. Será “A Velha”. Foi ela que me deu as más-vindas à maneira desconfiada de merceeira quando, mesmo à hora de fechar, lá entrei pela primeira vez. Ia desertinha de comprar o que era preciso para fazer uma sopa que me fizesse sentir em casa na primeira noite de independência. Qual seria o cheiro da minha sopa? Qual seria o cheiro da minha casa? Foi aí que começou o namoro com aquele cochicho com fruta da época em caixas à porta, uma mercearia como outra qualquer em qualquer outra rua de Lisboa. A Velha mirava-me o jeito, atrapalhava-me os gestos disparando silêncios descarados à insolência das minhas perguntas: “Não tem courgetes?” “Queria uma couve coração, só tem lombardo?” “Estas cenouras parecem velhas!”
- É tudo bom, disse-me, voz de trovão prensado, garras travadas no balcão, peito insuflado por um orgulho eficaz que nunca hei-de compreender. Meti a couve lombardo, as cenouras e a viola no saco, paguei e saí, sem mais prosápias.
Uma vez, pouco tempo depois, medimos forças numa disputa em que o que estava em jogo era apenas o mau feitio de cada uma. Queixei-me das maçãs, que não sabiam a nada. E ela mandou-me comprar maçãs ao supermercado se não gostasse das dela.
O ambiente na loja azedou, as clientes fizeram silêncio e recuaram uns passos, mostrando de que lado estavam e não era do meu. Mas eu estava com falta de paciência e quase contente na minha insolência.
- Ouça lá, se eu quisesse maçãs que não sabem a nada, é que não vinha cá, ia ao supermercado, não acha?, atirei, ignorando a boa educação.
Sem perceber, tinha feito pontaria ao orgulho da Velha merceeira.
- No sábado tenho Bravo Esmolfe, gritou-me, tão comprometida como irritada, já eu na rua. Ganhei o duelo e arrependi-me logo a seguir da parvoíce.
Entretanto, A Velha ganhou um indiferente e pouco convincente respeito pela minha pessoazinha. Cumpre o que julga ser seu dever e informa-me, tal como a qualquer outra cliente regular, se as laranjas não forem assim tão doces.
Mas não se esforça. Já passou “a pasta” à filha, à D. Lurdes, que é quem faz agora as “honras da casa”. Aparece raramente dos fundos da loja com o mesmo casaco de malha mas atende como se fizesse um favor a quem lá vai.
Ganhou a impaciência que se cola aos feitios introvertidos e avessos a intimidades, ao fim de muitos anos a aturar gente por obrigação. É a D. Lurdes, a filha, de olhos igualmente feios, que apazigua a irritabilidade da mulher que engrossou e endureceu com a idade como as coisas vivas.
Quando não pode deixar de se irritar quando vê alguma cliente a escolher os morangos com as mãos, quando vê mais uma unhada numa manga do Brasil, ou quando vê alguém deitar fora as folhas ainda boas de uma alface antes de a pôr no saco, é a D. Lurdes que lhe diz, numa língua que só elas conhecem, qualquer coisa que a faz suspirar e obrigar-se ao silêncio.
Há luxos a que se pode dar, a D. Lurdes, que ainda corre por inteiro nesta vida e tem uma filha no secundário que a faz sentir nova apesar dos seus 50 anos.
Graças à Velha e ao pai, a D. Lurdes pode deitar fora o pão que secou e que já ninguém vai comprar. A Velha não pôde livrar-se da poupança obsessiva herdada dos tempos em que conheceu a fome, quando veio para Lisboa e andava “ao papelão”.
Estas histórias nem a neta, “a menina”, as conhecerá. É só ela que consegue amaciar os músculos faciais da Velha, quando entra de sorriso aberto na loja, vinda da escola, a cheirar ainda a leite com chocolate e a perfume infantil.
Foi pela neta que perguntei na altura de pagar, hoje. (A insolência ainda cá está, mas há mais espaço para coisas que fazem menos mal à saúde). Ela encolheu o olhar, antes esticado até à parede da frente, e pespegou-o no meu durante eternos segundos num frente-a-frente inesperado.
A Velha tinha aceite ceder por um instante, deixando-me aquecê-la com a lembrança da neta. O “obrigada” que me dirigiu naquele olhar elevou-me à categoria de sua igual, como se eu pudesse, já hoje e não daqui a muitos anos, compreender as mulheres que engrossaram e endureceram com a idade como as coisas que vivem.


29 de fevereiro de 2008

25 de fevereiro de 2008

21 de fevereiro de 2008

Cada um tem o terceiro-mundismo que (não) merece

Há cerca de ano e meio, Hugo Chávez usou uma imagem de Sócrates num cartaz da sua campanha eleitoral para mostrar que a Venezuela era tu cá tu lá com a Europa moderna.
O primeiro-ministro português não gostou e o cartaz foi retirado.




Ontem, José Sócrates citou o candidato “xuxu” dos democratas norte-americanos, Barack Obama.
“Sim, nós podemos” foi o slogan citado, num discurso que já cheira a campanha eleitoral.

obamania

aposto um jantar em como a equipa de campanha do sócrates vai tentar fazer nas próximas eleições um clip promocional como o will.i.am fez para o obama.
ontem, sócrates já se aproveitou do "yes we can" do obama num discurso em lisboa.

mesmo sendo propaganda, o que will.i.am fez é fabuloso e de um bom gosto extraordinário, muito próximo de um teledisco, com obama transformado em artista pop.
que sirva de exemplo para os políticos portugueses, para fazer esesquecer aquela patetice do menino guerreiro.

20 de fevereiro de 2008

Eu é mais Obama, e vocês?

É impossível ficar indiferente às primárias nos States, que provam que as eleições podem ser emocionantes. Neste link podem descobrir quem é o "vosso" candidato. Também quero um quiz destes em português nas próximas eleições. Ajudaria muitos indecisos a decidir. Custa muito?!

17 de fevereiro de 2008

Atentado urbanístico ao nível do comércio tradicional*


A minha mercearia aburguesou-se. A D. Lurdes decidiu fazer umas obras de “melhoramento”. Substituiu o balcão de madeira escura e pedra mármore por um de plástico e alumínios. Comprou uns cestos de plástico cinzento e vermelho tipo “mini-mercado”. Substituiu os baldes cheios de água fria onde refrescavam as hortaliças por um frigorífico! Os molhos de espinafres e de nabiças vêm agora embalados em sacos de plástico e têm sempre aquele aspecto fresquinho independentemente da hora do dia. Não há folhas que murchem naquele super-frigorífico…
Quem murchou fui eu. Eu devia ter adivinhado. As mudanças foram aos poucos. Primeiro foi o presunto. Ainda aqui há uns meses, o presunto era cortado na hora, como nós quiséssemos, às fatias, inteiro, grande ou pequeno. Agora quem quer presunto leva do embalado. Antes havia só uma marca de queijo (daquele para fatiar), o preferido pela maioria das clientes, e o fiambre era sempre do mesmo, do “melhor”. Com o balcão novo vieram aquelas variedades todas embaladas e já fatiadas.
Aquilo é plástico e alumínio e variedade a mais para os meus delicados olhos. Qualquer dia tanto faz ir ali como a um super-mercado confuso qualquer. Aquelas mudanças fizeram confusão e não foi só a mim. Já ouvi uma ou duas clientes a olhar com ar de dúvida para aqueles super molhos de nabiças e espinafres empertigados nos seus celofanes transparentes.
Primeiro foi uma das “habituées” da terceira idade.
- Ó Lurdes, isto presta para alguma coisa?
- Então não vê que sim, fresquinhos!
- Hum…
Claro, a velhota rendeu-se à evidência.
De outra vez foi uma empregada de alguém que tinha voltado à loja para devolver os espinafres.
- A minha patroa quer dos normais, não quer estes no plástico.
Pouco surpreendida e depois de um suspiro, a D. Lurdes pegou no telemóvel (vejam bem!) e ligou um número.
- Tou sim? É a Lurdes aqui da mercearia. Ò Drª, então a sua rapariga diz que não gostou do que eu lhe mandei?!
-… (não consegui ouvir, apesar de ter tentado)
- Mas agora vem tudo assim. E são frescos, então não viu?
- …
- Agora não tem terra porque são lavados antes de lhes porem o plástico. Prefere-os com terra?
- …
- É do que eu gasto na minha casa, e são de confiança, pode ficar descansada. Agora só tenho assim Drªa, mas experimente e depois diga-me.

Apesar de tudo, continua a haver razões para lá ir. Sobretudo a fruta, é sempre muito óptima como diria uma amiga minha. Os queijinhos frescos, o requeijão, as morcelas de arroz, as hortaliças…enfim, são boas, e as azeitonas que sabem a azeitonas.
Quando ela substituir o balde das azeitonas verdadeiras por aqueles frascos com bolas pretas gigantes que não sabem a nada, juro que nunca mais lá ponho os pés.


*Infelizmente esta expressão genial não é minha. Ouvi-a uma vez numas férias num restaurante algarvio. O homem estava à espera para almoçar há duas horas e lá desabafou bem alto que era inadmissível e que "isto é o caos urbanístico ao nível da restauração". Eu adaptei.

8 de fevereiro de 2008


não terão o mesmo fulgor de há trinta anos, mas não deixa de ser um acontecimento.
só falta leonard cohen.

Paul McCartney - We All Stand Together

A pedido da Rita

7 de fevereiro de 2008

dead combo

dois dos gajos mais coool da música portuguesa estão a preparar um novo álbum.
enquanto ele não me chega aos ouvidos, vou ali enfrascar os álbuns anteriores e já venho.


31 de janeiro de 2008

25 de janeiro de 2008

pérolas de 1908



Estaes doente? tendes flatos? as vossas digestões são trabalhosas?
o vigorisador eléctrico curar-vos-ha como tem feito a tantos outros.
Dr. M A McLauglin, Rua Augusta, 1188, das 09 às 07 da noite.
o século, 1908.


meio infallível das galinhas porem os ovos durante todo o ano sem interrupções mediante o emprego dos PÓS OVIFICADORES!
Mr. Fanfillon.
o século, 1908.

24 de janeiro de 2008

we are very stylish girls

imagem do início do século XX retirada do flickr, onde o congresso norte-americano acaba de disponibilizar parte dos seus arquivos.

quem disse isto?

Na poesia é que está a verdade.
As palavras gastas pelo quotidiano têm o seu sentido aprisionado.
Só o poeta pode libertá-las.
A sua poesia fala de liberdade mas ele também, ao longo da sua vida, libertou a língua dessa prisão do quotidiano.

23 de janeiro de 2008

Um resumo da óperas Turandot e Carmen

está tudo aqui:

http://videos.sapo.pt/Nh6orAGfGR1Vppz1tUIv

clube dos 27 e dos 28

mais um para o clube dos que morrem aos 27 e 28 anos, onde já estão jimi hendrix, kurt cobain, jim morrison e janis joplin.

22 de janeiro de 2008

notícias de portugal em 1908

"Das pedras salgadas a chaves é perigoso fazer a viagem na mala-posta.
Como os leitores d´O Século terão visto, é raro o dia em que não haja reclamações acerca do mau estado das estradas em todo o paiz, na maioria completamente intransitaveis, sem haver quem se occupe da sua conservação ou reparação.
Sulcos profundos abertos pelas rodas dos carros, eis o que na maior parte das estradas se vê".
o século, fevereiro de 1908.

"Na rua do arsenal um "rufia" aggride à navalhada uma mulher que não lhe aceitava a côrte".
o século, fevereiro de 1908.

17 de janeiro de 2008

juro, pelo fado, pelo baile e pelo kuduro, que este país ainda tem futuro.


está para sair um álbum ao vivo do sérgio godinho, que soa como novo, apesar de todas as músicas já terem sido gravadas antes.

11 de janeiro de 2008

Book of Longing

Now you'll go your way
I'll go your way too

L.Cohen

7 de janeiro de 2008

descubra as diferenças

um resumo de uma novela e o lead de uma notícia do 24 horas. ou vice-versa.

"Natalino Correia diz que a namorada de Mauro Santos foi à discoteca onde ele trabalha para o provocar. Ana Filipa afirma que Natalino - que acusa Mauro de ter morto o irmão Ilídio - a espancou e apresentou queixa à polícia do Porto".

"Jaime tenta convencer Raul que foi Óscar que planeou a sua morte. O indiano não acredita e diz-lhe que um dia vão acertar contas. Raul encontra Andrade. O amigo de Óscar diz que o que aconteceu na Índia foi uma fatalidade do destino e que o pai de Raul não teve culpa".

29 de dezembro de 2007

There ain't no cure for love

I loved you for a long, long time
I know this love is real
It don't matter how it all went wrong
That don't change the way I feel
And I can't believe that time's
Gonna heal this wound I'm speaking of
There ain't no cure,
There ain't no cure,
There ain't no cure for love
I'm aching for you baby
I can't pretend I'm not
I need to see you naked
In your body and your thought
I've got you like a habit
And I'll never get enough
There ain't no cure,
There ain't no cure,
There ain't no cure for love

There ain't no cure for love
There ain't no cure for love
All the rocket ships are climbing through the sky
The holy books are open wide
The doctors working day and night
But they'll never ever find that cure for love
There ain't no drink no drug
(Ah tell them, angels)
There's nothing pure enough to be a cure for love

I see you in the subway and I see you on the bus
I see you lying down with me, I see you waking up
I see your hand, I see your hair
Your bracelets and your brush
And I call to you, I call to you
But I don't call soft enough
There ain't no cure,
There ain't no cure,
There ain't no cure for love

I walked into this empty church I had no place else to go
When the sweetest voice I ever heard, whispered to my soul
I don't need to be forgiven for loving you so much
It's written in the scriptures
It's written there in blood
I even heard the angels declare it from above
There ain't no cure,
There ain't no cure,
There ain't no cure for love

There ain't no cure for love
There ain't no cure for love
All the rocket ships are climbing through the sky
The holy books are open wide
The doctors working day and night
But they'll never ever find that cure,
That cure for love

Leonard Cohen

27 de dezembro de 2007

call girl


o cinema português tem muitos exemplos do que é mau cinema, filmes com péssimo som, imagem deprimente e, sobretudo, argumentos pobres.
ora, o filme que estreia hoje tem um bom argumento, actores a sério - incluindo a Soraia Chaves - e uma história com princípio, meio e fim que, apesar de ser ficção, é um reflexo mais do que espelho da sociedade portuguesa.
há ainda o bom gosto de antónio-pedro vasconcelos, quee fez um filme que não é pimba (com excepção do cartaz) nem intelectualóide e não se destina aos amigos.
sim, é verdade que filmes destes o cinema americano faz às dúzias e muito melhor.
mas no cinema português não.
nunca vi um filme português com tantos "foda-se" como este e a soraia chaves tem de facto tudo no sítio. mas isso são pormenores.

Uma colagem para quinta-feira



Gregory Tapper

Mais, do mesmo artista, aqui

23 de dezembro de 2007

Um Santo Natal e uma suculenta couve Penca






Mercearia na Rua Gomes Freire, sábado, 12:00. A velhota é “habituée”. A D. Lurdes, a merceeira, dá-me aquele levantar de sobrancelha de quando se percebe que o caldo está entornado… A velhota tinha entrado com ares de quem passou mal a noite, rugas amarrotadas e papos feios nos olhos. Mirei-a. Baixinha e redonda, sacode-se de um lado para o outro, não pára quieta. Remexe nas hortaliças, espreita o balde das azeitonas, apalpa as mangas do Brasil, chega uma Bravo Esmolfe ao nariz, tudo a enjoa, senta-se no banco de madeira, suspira, levanta-se e olha para o assento, tira um lenço e limpa-lhe a sujidade invisível com ar de nojo, volta a sentar-se, levanta-se outra vez, abre caminho impertinente até ao expositor da rua, entra na loja aos empurrões, traz laranjas e tangerinas, deposita-as no balcão, volta às hortaliças, baixa-se até aos pés e descobre uma couve Penca.
Não era de supor que uma velhota rabona (rabina velha há-de ser rabona, não?), com ar de quem passou mal a noite, beiça caída e extra-queixo por muitos e muitos anos a infernizar a vida aos outros, fizesse esta lida toda de bico calado, pois não?! Enquanto cirandava, espalhava o que hoje se diria má onda pela mercearia. E fez-se silêncio, porque o levantar de sobrancelha da merceeira foi o sinal de que se ia cantar o fado:
- Ai não me diga nada ó Lurdes, do Natal, eu não quero ouvir falar no Natal, não quero. O Natal, ora o Natal, o que é que tem o Natal? Antes de eu nascer já havia Natal! E eu já tenho …anos (tossiu e não se percebeu a idade, eu acho que foi de propósito, mas devia ter 60). O Natal…ãh, ãh (gagueja, irrita-se), eu sei o que é o Natal, é porcarias na televisão o dia todo.. (acalma-se e cala-se por um momento, foi a altura em que cheirou a maçã Esmolfe) hum, hum, sim eu sei muito bem o que é o Natal. Andam praí a dizer Bom Natal a torto e a direito e o Natal não é nada disto. É um dia como ós outros, sempre foi e há-de ser. É para comer com a família? Eu como com a família nos outros dias, ahã, (aclara a voz com uma tossidela). Calou-se e pensei que talvez já tivesse saciado as raivas. Mas foi quando se baixou e percebeu que ainda havia uma couve Penca (para mim era uma couve portuguesa e ponto final) esquecida no caixote das hortaliças, que se deu o milagre.
– Ai ó Lurdes, é Penca? A velhota, quando levantou a fronha, já era outra. Fez aquela pergunta com uma alegria tão genuína, com um tom de voz tão macio, até infantil, que deixei escapar uma gargalhada. Então era só isto que era preciso para acabar com aquela rabugice insuportável, uma couve?! Ri-me com vontade da natureza da vida e da gente. Olhou-me desconfiada e, eu, que não queria estragar-lhe o momento, disse não faça caso, achei graça ao nome da couve, não conhecia, mas se é assim boa também queria uma é pena já não haver. Acho que ela comeu a minha desculpa, porque à saída desejou-nos “um Santo Natal” e aí então é que foi, até a plácida D. Lurdes deixou ver um sorriso.

20 de dezembro de 2007

Rigoletto

La donna è mobile
Qual piuma al vento,
Muta d'accento — e di pensiero.
Sempre un amabile,
Leggiadro viso,
In pianto o in riso, — è menzognero.


La donna è mobile qual piuma al vento
Muta d'accento e di pensier!
e di pensier!
e di pensier!

A Orquestra Sinfónica Portuguesa a dar o seu melhor, o barítono a plenos pulmões, e na minha cabeça só se ouvia: "Luís, Luís, já foi a Paris, Luís, Luís, já foi a Paris"!!!

P.S. Adorei e voltarei

9 de dezembro de 2007

circo de rock n´roll


qual é a melhor coisa para uma tarde de domingo fastidiosa?
ir a um concerto dos xuutoooos! com circo.
o campo pequeno encheu para festejar os vinte anos do "circo de feras", mesmo numa matiné, e toda a gente cantou as músicas mais conhecidas.
fiquei de boca aberta a ver os miúdos a cantar aos berros "homem do leme", que os xutos tocaram em versão acústica, ou "contentores".
já para não falar de "minha casinha", que fica sempre para o fim, com toda a gente aos pulos.
mauzinho mesmo, escusavam de ter lá estado aquele parzinho acrobata com bolas, o coro gospel e as capas vampirescas que tim, zé pedro e cabeleira vestiram no arranque do espectáculo.

8 de dezembro de 2007

De manhã eu bou ao põm, a saquinha bai na mõm...




A ideia dos sacos de plástico foi uma invenção saudada como um sinal do progresso. Elogiaram-se as óbvias vantagens práticas e os super e os hiper tinham nos sacos uma publicidade gratuita. A mim dá-me jeito para forrar os caixotes do lixo. Mas posso bem passar sem eles. Agrada-me voltar aos sacos de pano que a minha avó usava nas compras na mercearia. Usados durante anos e repetidamente remendados. Ela não era activista ecológica e gostou quando nos supermercados lhe punham as compras em sacos de plástico. Eram de graça. Guardou apenas os sacos do pão, que continuou a levar à padaria todos as manhãs. Mas também isso foi abandonado quando o pão de Mafra e as vianinhas passaram a vir embaladas. Agora, quando em nome da consciência ecológica o Governo estuda a possibilidade de taxar os sacos de plástico nos hiper, e os próprios hiper decidem levar dois cêntimos por saco, não me chateia nada aderir à moda do saco de pano. Tenho que ir às gavetas mais esconsas da minha mãe procurar os sacos do pão que levei nas minhas primeiras idas às compras sozinha, armada em crescida. Lembro-me de padrões florais dos anos 60 e 70, formas e cores psicadélicas em pano de algodão. E sei que muitas raparigas prendadas da nossa praça se entretém a costurar sacos de pano bem coloridos. As minhas idas à mercearia vão passar a ser mais alegres. Não custa nada e é muito mais bonito. Tenho é que pensar com o que é que vou forrar os caixotes do lixo. Jornais?

1 de dezembro de 2007

Hip Hip...


O sítio chama-se Bengal Tandoori. Não é um nome que inspire a minha veia poética (sim, eu tenho uma ou duas veias poéticas) mas o certo é que foi naquele restaurante que quatro mulheres inspiradas decidiram construir uma casa para o encontro de imaginações e olhares sobre o que quer que lhes passasse pelas cabeças. Entretanto, já lá vai mais de um ano e muita água correu debaixo das pontes, embora uma ou duas de nós menos atreitas a frases feitas preferissem dizer que “muito tinto passou pelas nossas goelas”. Tinta Roriz, Touriga Franca, Mil-Diabos e Trincadeira alimentam esta casa since 16/09/2006. Foi a essa data e à amizade que brindámos ontem. Várias vezes.

P.S. Mil-diabos vai lá buscar uma ilustração daquelas giras alusivas ao tema fachavor.

assim, de repente, sobre quatro gajas giras e cheias de graça, só me lembrei desta.
mil-diabos

30 de novembro de 2007

29 de novembro de 2007

A melhor prenda (para mulheres cansadas de aturar os maridos)


Cortesia: fogacho

O marido de Vossa Excelência fuma? Ofereça-lhe cigarros. O seu marido tem problemas de colesterol? Ofereça-lhe um copioso banquete rico em gorduras saturadas. O seu marido é alcoólico? Ofereça-lhe uma caixa de Jameson. O seu marido é “junkie”? Há no mercado oferta variada de cocaínas e heroínas.
No caso de Vossa Excelência pertencer à percentagem muito reduzida de esposas a quem calhou um marido que não é parvo de todo, previna-se com argumentos sólidos e mostre-lhe a publicidade. O texto publicitário que se segue pode chegar.
O presente inesperado é o mais desejado. Parabéns!. V. Demonstrou ser uma pessoa moderna e de requintado bom gosto. O seu presente foi um verdadeiro achado. V. não lhe quis dar mais uma dessas coisas complicadas que nunca se usam. Deu-lhe uma prenda prática e original. Ofereceu-lhe os cigarros que Ele fuma nas novas caixas de dez maços da Kart.”
No caso do seu marido ser do tipo mesmo desconfiado, recorra enfim aos métodos ancestrais e ponha um batonzinho nos lábios. Faça-lhe uns olhares malandrecos e já agora use um vestidinho justo, (só se for rapariga esbelta como eu) na altura de abrir os presentes!

26 de novembro de 2007

aprendam, porque eu não duro sempre


"As uvas têm umas bocas grandes chamadas ‘stigmata’ e é por aí que respiram e que desenvolvem o açúcar para o vinho".

24 de novembro de 2007

20 de novembro de 2007

15 de novembro de 2007

Casal dull

Aconteceu que discutimos longamente a quantidade de cubos de calçada portuguesa que enchem o passeio que rodeia o nosso prédio. Fizemos as contas mais loucas, divergimos em quantidades, e argumentámos com os argumentos de quem não percebe nada do assunto. Como a wikipédia não tivesse (desta vez) a resposta, chegámos a um impasse. Corremos pelas escadas abaixo para medir in loco por causa das teimas. A discussão foi acesa. No final, usando como referência o comprimento dos carros estacionados e a medida dos nossos pés, concordámos que andariam à volta de 260 mil. Foram 15 minutos bem regados, ups, quer dizer, bem passados!

14 de novembro de 2007

13 de novembro de 2007

sopa de puta fina

em ambiente sopeiro, não resisto a recordar uma das minhas sopas preferidas.
fazia-se ocasionalmente lá em casa quando havia preguiça para cozinhar. geralmente calhava ao domingo à noite, hora de neura.
sei que leva muito alho, pão duro, muitos coentros, azeite e ovos mexidos no final.
não demora mais do que meia hora.
parece sopa alentejana, mas na minha terra chama-se sopa de puta fina.

há circo na cidade

não sou uma fã maluca da música dos xutos & pontapés, mas acho muita graça aos músicos, por todo o espírito rock n´roll que os envolve e pelas ideias novas que eles têm para tocar mais do mesmo, mas com outros embrulhos.
desta vez vão ter circo num concerto no campo pequeno para celebrar os vinte anos do álbum "circo de feras".
vão lá estar "a casinha", "contentores", "na américa", "vida malvada" e até "aventura homossexual do general custer" de um single que saiu depois.
não haverá leões nem domadores (ooohhh), mas esperam-se contorcionistas, trapezistas e outros istas do novo circo.
serão 50 pessoas em palco a 08 e 09 de dezembro e será gravado para mais tarde recordar.

11 de novembro de 2007

Receita de sopa que ferve uma manhã inteira e onde se usam couves tenras que se mandaram apanhar na horta às primeiras horas da manhã

Não resisti a sublinhar algumas passagens.

"Num panelão de barro ou de esmalte, deitam-se alguns ossos de vaca, ossos de leitão assado (se os houver), um naco de presunto, 4 ou 5 cenouras, sal e pimenta. Cobre-se com água fria e deixa-se ferver durante uma manhã inteira. A meio da manhã, manda-se apanhar na horta 2 ou 3 couves tenras, as quais, depois de se terem lavado muito bem, ripam-se para dentro da panela. Uma hora antes de servir, deitam-se fatias de pão cortadas o mais fino possível, mas antes de se deitar o pão, retiram-se os ossos todos da sopa. A porção de pão varia conforme se queira sopa em caldo ou género sopa seca. Cerca de 30 minutos antes do almoço prova-se e tempera-se com uma boa chávena de molho de leitão e com mais uma pitada de sal, se necessário. Ferve sempre, desde as primeiras horas da manhã, até à hora de estarem todos à mesa, à espera dela."



A receita intitula-se "Sopa fervida como se faz na minha família", vem assinada pelo "Doutor Lopo Cancella de Abreu", médico, no nº 70 da revista de culinária Banquete, de Dezembro de 1965.
Se não me engano o autor da receita foi ministro do Estado Novo e era o marido da directora da Banquete, Maria Emília Cancella de Abreu

8 de novembro de 2007

Carta aberta de uma cliente insatisfeita e desembolsada ao



Venho por este meio manifestar o meu apreço e admiração pela forma que o Metropolitano de Lisboa encontrou para cobrar a 10 euros um serviço que está tabelado a 7. Fiquei orgulhosa pela inteligência das cabeças que gerem a Vossa estimável empresa na prestação de um serviço público. É ainda com prazer que reparo que a administração do Metro está de consciência tranquila e certamente orgulhosa pela esperteza saloia com que brinda os cidadãos de Lisboa. Moeda aqui…moeda ali…são milhões ao fim do ano que saem das nossas carteiras para as vossas contas bancárias.
Mas o que me traz pela primeira vez ao Vosso convívio é a artimanha da "taxa de urgência" pelo cartão Lisboa Viva. O preço do cartão, uma renovação, é de sete euros. Mas claro…demora 14 dias. Duas semanas inteiras, é coisa para ficar bem feitinho, digo eu. Mas há um problema. É que, entretanto, não posso ficar em casa à espera que o cartão esteja pronto. Tenho que usar o Metro para ir trabalhar e gastar o equivalente a um passe urbano para 30 dias em bilhetes, mais coisa menos coisa. Não faz muito sentido pois não? Mas não tenho alternativa. Quer dizer…tenho. A funcionária do Metro que me revelou a solução, no balcão do Colégio Militar, estava até envergonhada, mas dever é dever:
- "Sabe, se pagar três euros a mais pode ter o cartão já amanhã. Acaba por compensar"
- "Ai é? Então é possível fazer de um dia para o outro? Então não leva 14 dias?", perguntei eu desconfiada. Aquilo parecia conversa de candonga.
- "Esse é o prazo normal. Mas se pagar a taxa extra, não. E compensa num dia só de viagens, não é?".
- "Ah, uma taxa extra. Boa ideia, mas porque é que me sinto enganada?"
- …

Fantástico. É como pedir um almoço tabelado a 20 euros e poder comê-lo só ao jantar. Mas se pagar 40 euros, posso comê-lo efectivamente à hora do almoço. Há coisas que são demais, que são evidências, que não são intelectualmente defensáveis. Esta vossa artimanha não é defensável a nenhum título, lamento. É patética. É ridícula. Dar-vos-ei com agrado os 10 euros, afinal o preço real do cartão. Ouso é sugerir que no próximo ano tabelem o preço de um cartão novo a 9,9 euros. São menos … 10 centimos mas a vossa honestidade não sairá beliscada. E isso não é pouco. Entretanto, se vos – e quando digo `vos´ dirijo-me aos decisores – se precisarem de mais uns trocos ao fim do ano para fazer boa figura junto dos accionistas, ou para os bónus no Natal, apitem que é sempre possível ajudar um amigo em necessidade.

4 de novembro de 2007

o que fazemos todos os dias?




Gato semáforo

O meu gato arranjou um sistema inteligente para comunicar comigo sem recurso aos miados. Quando tem fome, abre a pestana e vê-se a luz azul: "pode abastecer". Quando não quer mimos e apenas paz e sossego, abre a pestana e mostra o sinal vermelho. Evita-se a miadeira e as arranhadelas. É muito eficaz, não me posso esquecer de patentear a invenção. Não é difícil imaginar o estado de espírito do Peta no momento da foto: "Deixa-me em paz e vai buscar a paparoca!".

29 de outubro de 2007

rio das flores

hoje na fnac colombo, ainda o rapaz da loja estava a acabar de colocar os livros na estante, já duas quarentonas pegavam em dois exemplares e dirigiam-se logo para a caixa.
no caminho comentavam: "já viste agora é só calhamaços, hi hi".
o escaparate tinha mais obras dele, um cartaz com nome da última obra e do autor, uma imagem de fundo a preto e branco.
está mesmo à entrada, pronto a ser agarrado.
foi posto hoje à venda, são cem mil exemplares.
cheira-me que não chegam para o natal.

26 de outubro de 2007

Um sem-abrigo com consciência ecológica

Não era um pedinte qualquer. Aliás, nem sequer era um pedinte. Era um cidadão com consciência ecológica. Sentado no chão, na Rua Garret, no Chiado, o rapaz recortava com mão certeira latas de coca-cola, fanta, sumol, em engenhosas cadeirinhas e bem intrincados cinzeiros. Tinha escrito com caneta de feltro num bocado de cartão “Não se esqueça, recicle” e outra frase qualquer sobre o ambiente ou o aquecimento global.
- Quanto é que é? perguntei, divertida.
- Não é nada, isto é só mais para alertar… a ..a..consciência das pessoas.
- Ai é?, franzi o sobrolho, como quem diz, “hum…tem a certeza? Então não quer nada?”
- Oh, só se quiser dar uma contribuiçãozinha, é o que quiser, isto não vale nada…é a mensagem pela mensagem.
Como um sem-abrigo com miolos já não é um pedinte por muito sujinho que esteja e por muito arrastada que seja a voz de coitadinho, dei-lhe um euro por um cinzeiro novinho em folha. Quer dizer…novo não é, mas “o que importa é a mensagem pela mensagem”!

23 de outubro de 2007

O lápis azul, o tampax e a liberdade na Modas e Bordados dos anos 40


Capa da "Modas e Bordados, Vida Feminina", início da década de 40.

A histórica “Modas e Bordados” fez entre 1912 e 1977 a alegria das mulheres portuguesas das classes média e alta, que encontravam nela não apenas conselhos sobre as artes domésticas mas um espaço de alguma liberdade. A política também passou por ali, metida entre as receitas e dicas sobre saúde, dietas, modas e signos, poesia, contos e entrevistas a actrizes dos filmes do Vasco Santana ou a respeitáveis senhoras casadas que transmitiam a visão tradicional da mulher e a visão que se “deveria” ter do mundo. Surpreendeu-me que o Estado Novo considerasse necessário mandar ao lápis azul uma revista que nem sequer era vendida nas bancas mas como suplemento de um jornal, “O Século”, e que na aparência tratava de inofensivas “coisas de mulheres”. Afinal não seriam assim tão parvos…



Por outro lado... terem deixado passar este anúncio aqui em baixo é uma coisa espantosa. Será que perceberam?! (Esta revista é igualmente do início da década de quarenta)


Vale a pena clicar na foto para ler a mensagem publicitária. "Nem alfinetes, nem chumaços", "Tampax quere dizer...liberdade (em itálico no original)". Claro que deixar os "chumaços e os alfinetes" seria uma libertação para as mulheres. Noutro sentido, "liberdade" e "invisível" são as duas únicas palavras em itálico no anúncio. Muito provavelmente é coincidência, mas eu gosto de pensar que não é. Não sei se naquela altura já era assim, mas alguns anos mais tarde, "liberdade" foi uma palavra proibida até nas letras das canções.

20 de outubro de 2007

A pobreza é um lugar comum, por isso perdoem-me

Em Portugal existem 2 milhões de pessoas a viver abaixo do limiar da pobreza. No sítio onde vivo, no centro de Lisboa, vivem também muitos muito ricos e muitíssimos muito pobres. Eu não sei se esses fazem parte das estatísticas, mas alguns vão ao talho da Gomes Freire. Hoje, enquanto pensava, indecisa, se levava borrego ou vitela para um jantar com amigos cá em casa, entrou uma mulher que não era cliente habitual. Estranhámos logo, clientes e empregados, a maneira como entrou, apressada, de peito levantado, como se tivesse respirado fundo antes de entrar. Alta, loura, teria trinta e cinco anos, vestia uma blusa de alças que deixava ver uma pele clara com bronze de países tropicais. O cabelo estava despenteado, cara bonita sem pintura. Teria acordado há pouco tempo e saído à rua para as compras sem tomar o pequeno-almoço, como eu.
- Quanto custa estas aqui, perguntou, com ligeiro sotaque do Brasil.
- São 6,98 o quilo. O talhante pegava hesitante na caixa das almôndegas, mas ela disse:
- Não, não, deixa. Vou levar “isto” de fígado. Dirigiu-se rápida ao fim do balcão, onde estava o fígado e estendeu a mão ao empregado.
- Hoje só temos de porco, disse o talhante, com voz de simpatia e eu percebi que não seria a primeira vez que ela pedia fígado, a coisa mais barata.
Olhámos para o “isto” que ela mostrou ao empregado. Eram três euros. Uma moeda de dois euros e uma moeda de um euro. Silêncio e depois…nada. Eu que me “virasse” com a vontade de chorar que veio de repente. Na cara dela não havia espaço para acolher a minha piedade. O silêncio que se gerou foi o único sinal de pena e, ao mesmo tempo, de respeito. Ninguém se ofereceu para lhe pagar as almôndegas. Sentimos que não seria aceite esse gesto de ajuda. Ela era pobre mas não se sentia pobre. Não se dá esmola a quem não se sente pobre. (Ou seria esta conclusão uma forma de justificarmos a nossa inércia cobarde?) A cara respondeu ao silêncio compondo um ar de sobranceria. Eu pensei…sim, quem desdramatiza isto, é porque já viveu muito pior.
- Mas quer em bifes ou cortado aos bocadinhos?
Claro que é aos bocadinhos estúpido, pensei. Sim, era aos bocadinhos que ela queria. Para render. Ela deixou os três euros no balcão e saiu rápida. Passou muito perto e vi-lhe manchas ainda frescas de leite na blusa. Era mãe. Perdoem-me estas lágrimas.

18 de outubro de 2007

pode um país caber num filme?

dois filmes recentes fazem-me pensar sobre a ideia que temos de um país.



um deles, possivelmente nem chegará às salas de cinema, é "taxi to the dark side", de alex gibney, um realizador que acusa os Estados Unidos de torturarem prisioneiros no Afeganistão, Iraque e em Guantanamo.

o filme passa hoje no doclisboa e dá uma visão aterradora, terrível , monstruosa dos Estados Unidos. dá vontade de os odiar a todos, sem excepção, por serem uns cobardes medievais de merda.

o outro filme é "persépolis", animação de marjane satrapi e vincent paronnaud, que deverá estrear comercialmente no final de outubro ou em novembro.

o filme é fabuloso, conta uma história biográfica passada no irão, no final dos anos 70 depois da revolução islâmica, e coloca questões mais ao nível de diferenças culturais e da liberdade de expressão.




17 de outubro de 2007

Eu sei que é chão, mas parece um mapa



Terreiro do Paço, Lisboa. É pedra comida pelo tempo e por milhões de passos desde há séculos...mas não estou convencida que não seja mesmo um mapa.

15 de outubro de 2007

A Justiça é cega, mas às vezes exagera...

Achei que vossas excelências iam gostar de ler este post.

12 de outubro de 2007

pecado

como costumo dizer, fico doente quando oiço o que se passa neste país.
toda a gente sabe que a igreja é uma máquina de fazer dinheiro, mas esse dinheiro devia diligentemente ser distribuído por quem precisa e não para erguer belos edifícios arquitectónicos.
70 milhões de euros para uma basílica?!?
um fausto que pagaria alimentos para quantos desgraçados?
tenho para mim que se a nossa senhora fosse hoje à cova da iria para uma nova aparição dava-lhe um fanico com tanta alarvidade da santa igreja católica.
é por coisas destas que deixei de ir à missa.

11 de outubro de 2007

O silêncio das inocentes

É normal ouvirem-se na cidade do Porto os gritos das gaivotas. Por isso, quando calha ouvir-se mais o silêncio…há quem fique baralhado. O dia não é o mesmo. Parece que há qualquer coisa errado com as coisas. Quando o que falta é daquelas coisas que toda a vida existiram, mais difícil se identifica a ausência. O primeiro sentimento é de pura baralhação e a cabeça parece que anda aérea. Mas o que é que raio se passa?! O homem que eu vi absorto a olhar para o chão, de mãos nos bolsos, ali para os lados da Casa da Música, descobriu a razão da sua inquietude em pleno diálogo com um vizinho.
- João, viva, novidades?, perguntou o vizinho quando saía do prédio. Mas a resposta foi só um “hum”…O homem, nos seus cinquenta, continuou de cabeça baixa, mãos nos bolsos, olhando para os sapatos.
- Homem, então, isso vai ou quê? O homem lá “acordou” e respondeu ao cumprimento, tirou as chaves de casa do bolso e ficou com elas nas mãos, brincando com elas, um bocado desajeitado.
- Nem parece teu, estavas aí a contar as formigas ou quê? Olha, vou buscar frangos, anda daí, bebemos um fino.
Neste ponto, o homem levou a mão ao estômago e teve um esgar de náusea. Fosse o que fosse, o vizinho não notou, mas a cara do homem iluminou-se e ele tirou os olhos do chão e espetou-se a olhar para o céu.
- As gaivotas…não se têm ouvido as gaivotas!, disse isto assim de rajada e, como a frase lhe pareceu ter surpreendido o vizinho, calou-se, um pouco envergonhado. Um homem feito, mãos para trabalhar e família para sustentar, cismando nas inocentes gaivotas? Isso, no tempo dele, seriam provavelmente “caprichos de mulheres”.
- Parece que não se tem ouvido as gaivotas, insistiu, dando um tom mais indiferente ao caso. Não foi ele que reparou, o “parece que…” dá muito jeito nestas situações.
- Diga João, as gaivotas o quê? Estranhou o vizinho.
- As gaivotas…parece que não se têm ouvido, então não reparou?
- Ah, é verdade, é verdade. Não se têm ouvido não. Deve ser do tempo…Então não quer vir João?
- Ah, vou pra casa, tenho lá o neto.
- Cumprimentos à patroa, João.
Mas não foi para casa, ficou cá fora, à porta do prédio, de braços cruzados, a cara descontraída, contente por ter desatado o nó, um pouco triste com o silêncio no céu do Porto.

10 de outubro de 2007

a very stylish girl



encontrei-a aqui há dias no chiado.

5 de outubro de 2007

A moral num anúncio a fogões de 1965

As revistas de culinária nem sempre surpreendem por anúncios de carácter duvidoso. Em 1965, a revista Banquete, dirigida por Maria Emília Cancella de Abreu (de quem voltarei a falar), trazia um anúncio que prometia o "melhor fogão nacional", um tal de "Presmalt". Desta vez, o slogan é sóbrio e até inspirador. Dizer que "Escolher Presmalt é proceder com acerto" traduz um verdadeiro juízo de carácter moral. Quem comprar Presmalt pode ir deitar-se de consciência tranquila, pode dormir o sono dos justos, porque procedeu com acerto. Eu não sei se ainda se fabricam os fogões Presmalt, mas gostava de saber porque compraria de certeza. Não há nada que pague a certeza absoluta de ter procedido com acerto, sobretudo porque isso é uma coisa que raramente me acontece. Não me lembro aliás de alguma vez ter pensado "Trincadeira maria, tu hoje procedeste com acerto". Não há qualquer comparação entre ter alguém a dizer-me "trincadeira, descansa que fizeste bem" e ouvir a solene e sólida convicção de ter procedido com acerto. Reparo que já repeti vezes demais o slogan da Presmalt, é só mais uma vez: "Proceder com acerto"...ai que descanso.

3 de outubro de 2007

O tratamento da condição feminina nos anos 70

Descobri há dias que em 1978 tentavam impingir à “mulher moderna” um produto “desinfectante-desodorizante” para a “higiene íntima” que garantia o “aroma da higiene” mesmo “nos dias especiais do mês”. Chamava-se Dystron.

Numa análise à dita mensagem publicitária, surgem-me ao espírito várias interrogações.
Por exemplo, ao que é que se referem precisamente quando falam nos “dias especiais do mês”? É que de acordo com uma breve sondagem feita a mulheres modernas aqui da chafarica, não há dia mais especial no mês que o dia de pagamento. Será que precisamos de cheirar a lavadinho para receber o salário? E porquê só nesses dias? E isto leva-me a outras considerações. O que significa em concreto a expressão “aroma da higiene”? Isto cheira-me a gato por lebre. Olhem que rica descoberta publicitária. Mas tomar banho para quê se podemos cheirar a lavado sem ter a chatice de ir à banheira?! Modernices dos anos 70, de certeza. O anúncio, que pode ser encontrado no número especial da Teleculinária de Dezembro de 1978, é encabeçado por uma fotografia de rosto de uma “mulher moderna” pintalgada à última moda:


1 de outubro de 2007