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20 de maio de 2008

Uma mercearia típica de Lisboa

Já todos sabem que tenho um fraquinho por aquelas mercearias antigas escondidas num numa rua qualquer de Lisboa. Do chão de pedra ao balcão de madeira escurecida passando pelo relógio por cima da balança de pesos, tudo se conjuga para forrar as histórias que de lá nascem. A mercearia que tem sido alvo dos meus enlevados protestos é a da Gomes Freire, também já se sabe. Recentemente passou por uma “make over” cosmética que garantiu mais higiene sem afectar a sua beleza alfacinha. Mas afinal, percebi há dias, o “very tipical” não tem que se esgotar nos caprichos da merceeira nascida nas beiras especialista em tudo o que tenha a ver com frutaria e hortícolas. Numa rua mais abaixo, a Luciano Cordeiro, apareceu uma mercearia/drogaria cujos donos já aprenderam quatro palavras em português: “sim”, “obrigada”, “doces” e “frescos”. É o que chega. É um casal jovem que atende ao balcão. Os dois de pele morena e cabelos escuros, ela, mal-encarada apesar dos seus esvoaçantes vestidos indianos, ele com um permanente sorriso e esforçando-se por aprender mais uma palavra: “manga, si ah?”. Da primeira vez que fui lá ver fiquei mal impressionada. Sim, era tudo a metade do preço da mercearia da Gomes Freire mas não tinha nem metade da qualidade. Tudo velho, das verduras à fruta, incluindo algumas laranjas podres. Peguei numa e mostrei-lhe:
- Olhe pra isto, está tudo podre! Ele só disse “si” mas percebeu a ideia e foi buscar uma caixa nova mas levantou o cartão e afinal…mais laranjas podres. Ele não falava português mas deu-me razão: “naao bom”. Mas na semana passada, quinze dias depois, passei lá vinda do trabalho, já oito da noite, e a porta estava aberta. E o homem ficou visivelmente contente. Saiu do balcão e foi direito à caixa das laranjas: “ah hoje larajas, si? Mouto frescas ah?” A memória do homem impressionou-me, eu seria incapaz.
Trouxe a experimentar e sim, “mouto doces”. Aos poucos, o casal está a aprender os gostos da gente do bairro do Conde Redondo e arredores, de todo o tipo, desde a couve portuguesa à mandioca, laranjas e pêra abacate. Porque, à excepção de uns frascos de picante feitos em casa e que eu não me atrevo a provar, a mercearia não tem nada indiano a ser os donos. Claro que o chão podia ser lavado mais vezes. Para o casal, não há aparentemente nada de mal em ter um pombo a voar pela loja adentro ou a picar as folhas velhas espalhadas pelo chão. Mas reparo que a arrumação também está a melhorar. E eu penso que não pode haver mais “very tipical” que esta mercearia, símbolo da Lisboa de sempre, a do encontro de todas as culturas.

17 de março de 2008

Eu vi um sapo, com um guardanapo...

Não sei nada da história do Mário a não ser o que nos contou a D. Lurdes, da mercearia da Gomes Freire. Já o tinha visto andando desacertado em várias ruas da zona, a várias horas do dia e a da noite. Sei que a bebedeira é um estado habitual do Mário, um alcoólico que se confunde com um sem-abrigo. Vi-o a rir à maluca frente ao carro que o ia atropelando e vi como gritava e ria no meio da estrada no Conde Redondo com um pacote de vinho na mão. Sei que ele fala a gritar com quem passa no passeio onde estiver. Uma vez ouvi-o gritar umas coisas em inglês a umas estrangeiras que iam a passar e lembro-me de ter pensado que ele tinha muita graça. Mas o Mário não é um sem-abrigo. A acreditar na história que nos contou a D. Lurdes, o rapaz chegou a ser um matemático brilhante. Era professor no Liceu Camões, bem perto da casa onde mora, na Duque de Loulé. A D. Lurdes contou-nos isto e mais algumas coisas no sábado passado. Era meio-dia e a rua estava finalmente calma depois da azáfama da manhã. Poucos carros, pouca gente, o quiosque às moscas, as lojas a fechar. Eu estava à entrada da mercearia, e o Mário encostado à parede uns dez metros mais adiante. Fora da loja, uma senhora baixou-se para escolher umas tangerinas do caixote da fruta rente ao chão. E o Mário acompanhou-lhe o movimento com a cabeça, espreitando, divertido, o decote da senhora.
Já dentro da loja, a senhora, eu e mais uma rapariga esperávamos a nossa vez quando da rua pacífica vieram uns gritos surpreendentes: O Mário cantava o “Eu vi um sapo” mas com uma letra adaptada:
- “EU VI-TE AS MAMAS, EU VI-TE AS MAMAS, EU VI-TE AS MAMAS, EU VI-TE AS MAMAS!, taratari, taratari, tiri, tiri..”
Imaginem isto cantado com a música do “Eu vi um sapo” que agora faz PUB à Internet. Claro, rimos à gargalhada e eu reparei que a senhora corou um pouco, afinal também percebeu o movimento atrevido do Mário junto aos caixotes da fruta.
Olhámos lá para fora, menos a D. Lurdes, que mordia o lábio para não se rir, e lá estava ele, completamente feliz a cantar e a dançar no passeio. Parava um pouco para se rir à gargalhada e voltava ao mesmo. A D. Lurdes, afinal vizinha de longa data do homem, e amiga dos pais, sentiu-se na necessidade de justificar a loucura do rapaz e fez o diagnóstico: “Uma mente brilhante que um dia terá tido um esgotamento nervoso que não foi bem acompanhado e deu nisto”. Parece que ele começou aos poucos a deixar de se interessar pelo trabalho, pelos alunos, e acabou por se apaixonar pelo vinho e a abandonar a higiene por completo. Às vezes o irmão vem ter com ele e leva-o para casa, dá-lhe banho, corta-lhe o cabelo e veste-lhe roupa lavada. Mas o mais estranho do caso do Mário, interroga-se a D. Lurdes, é que quando um antigo colega, também matemático de renome, o vem procurar, súbitas mudanças acontecem.
- “Chegam a ter grandes conversas, o Mário e colega. Quando o amigo vem, ele muda por completo, endireita-se todo e fala normalmente com ele, como se não tivesse bebido, sobre as coisas no Liceu, sobre o mundo e discutem sobre as coisas deles como se o rapaz nunca estivesse estado neste estado”, admira-se a D. Lurdes com um certo respeito no tom de voz…
Olhámos lá para fora e vimos o homem tão descontraído na sua cantiga a apanhar sol a dançar pelo passeio que concluímos que talvez o Mário não se tenha perdido mas, ao contrário, achado, a certa altura da vida.

6 de março de 2008

...como as coisas que vivem

Imagino que os super-hiper-mega-mercados dariam histórias bem mais emocionantes. Cada corredor seu segredo, cada repositora de patins uma aventura. Mas a mim calha-me melhor a mercearia da Rua Gomes Freire, perdoem a insistência. Já lhe achei mais piada, antes do balcão modernaço e das nabiças embrulhadas em celofane como se fossem rosas senhor. Há reveses na vida que temos que superar, não é verdade? O “progresso” é um deles. Deixei de lá ir por quinze dias em protesto por os meus espinafres já não virem com terra, mas ultrapassei a coisa. Comi uns chocolates para arribar e ganhei coragem. Fui lá hoje e quem é que lá estava? Nada mais nada menos que A Velha. A desaparecida senhora, a mãe da D. Lurdes. A verdadeira dona da casa. A genuína merceeira. Foi com profunda alegria que a vi ali sentada, sufocando por completo o banquinho baixo de madeira. Entrei, como sempre, às pressas, fazendo o meu teatro de dona de casa atarefada que não sou capaz de ser. E estaquei ali mesmo, frente aos seus feios olhos grandes observando a vida através de mim. Não sei como se chama, acho que prefiro não saber. Será “A Velha”. Foi ela que me deu as más-vindas à maneira desconfiada de merceeira quando, mesmo à hora de fechar, lá entrei pela primeira vez. Ia desertinha de comprar o que era preciso para fazer uma sopa que me fizesse sentir em casa na primeira noite de independência. Qual seria o cheiro da minha sopa? Qual seria o cheiro da minha casa? Foi aí que começou o namoro com aquele cochicho com fruta da época em caixas à porta, uma mercearia como outra qualquer em qualquer outra rua de Lisboa. A Velha mirava-me o jeito, atrapalhava-me os gestos disparando silêncios descarados à insolência das minhas perguntas: “Não tem courgetes?” “Queria uma couve coração, só tem lombardo?” “Estas cenouras parecem velhas!”
- É tudo bom, disse-me, voz de trovão prensado, garras travadas no balcão, peito insuflado por um orgulho eficaz que nunca hei-de compreender. Meti a couve lombardo, as cenouras e a viola no saco, paguei e saí, sem mais prosápias.
Uma vez, pouco tempo depois, medimos forças numa disputa em que o que estava em jogo era apenas o mau feitio de cada uma. Queixei-me das maçãs, que não sabiam a nada. E ela mandou-me comprar maçãs ao supermercado se não gostasse das dela.
O ambiente na loja azedou, as clientes fizeram silêncio e recuaram uns passos, mostrando de que lado estavam e não era do meu. Mas eu estava com falta de paciência e quase contente na minha insolência.
- Ouça lá, se eu quisesse maçãs que não sabem a nada, é que não vinha cá, ia ao supermercado, não acha?, atirei, ignorando a boa educação.
Sem perceber, tinha feito pontaria ao orgulho da Velha merceeira.
- No sábado tenho Bravo Esmolfe, gritou-me, tão comprometida como irritada, já eu na rua. Ganhei o duelo e arrependi-me logo a seguir da parvoíce.
Entretanto, A Velha ganhou um indiferente e pouco convincente respeito pela minha pessoazinha. Cumpre o que julga ser seu dever e informa-me, tal como a qualquer outra cliente regular, se as laranjas não forem assim tão doces.
Mas não se esforça. Já passou “a pasta” à filha, à D. Lurdes, que é quem faz agora as “honras da casa”. Aparece raramente dos fundos da loja com o mesmo casaco de malha mas atende como se fizesse um favor a quem lá vai.
Ganhou a impaciência que se cola aos feitios introvertidos e avessos a intimidades, ao fim de muitos anos a aturar gente por obrigação. É a D. Lurdes, a filha, de olhos igualmente feios, que apazigua a irritabilidade da mulher que engrossou e endureceu com a idade como as coisas vivas.
Quando não pode deixar de se irritar quando vê alguma cliente a escolher os morangos com as mãos, quando vê mais uma unhada numa manga do Brasil, ou quando vê alguém deitar fora as folhas ainda boas de uma alface antes de a pôr no saco, é a D. Lurdes que lhe diz, numa língua que só elas conhecem, qualquer coisa que a faz suspirar e obrigar-se ao silêncio.
Há luxos a que se pode dar, a D. Lurdes, que ainda corre por inteiro nesta vida e tem uma filha no secundário que a faz sentir nova apesar dos seus 50 anos.
Graças à Velha e ao pai, a D. Lurdes pode deitar fora o pão que secou e que já ninguém vai comprar. A Velha não pôde livrar-se da poupança obsessiva herdada dos tempos em que conheceu a fome, quando veio para Lisboa e andava “ao papelão”.
Estas histórias nem a neta, “a menina”, as conhecerá. É só ela que consegue amaciar os músculos faciais da Velha, quando entra de sorriso aberto na loja, vinda da escola, a cheirar ainda a leite com chocolate e a perfume infantil.
Foi pela neta que perguntei na altura de pagar, hoje. (A insolência ainda cá está, mas há mais espaço para coisas que fazem menos mal à saúde). Ela encolheu o olhar, antes esticado até à parede da frente, e pespegou-o no meu durante eternos segundos num frente-a-frente inesperado.
A Velha tinha aceite ceder por um instante, deixando-me aquecê-la com a lembrança da neta. O “obrigada” que me dirigiu naquele olhar elevou-me à categoria de sua igual, como se eu pudesse, já hoje e não daqui a muitos anos, compreender as mulheres que engrossaram e endureceram com a idade como as coisas que vivem.


17 de fevereiro de 2008

Atentado urbanístico ao nível do comércio tradicional*


A minha mercearia aburguesou-se. A D. Lurdes decidiu fazer umas obras de “melhoramento”. Substituiu o balcão de madeira escura e pedra mármore por um de plástico e alumínios. Comprou uns cestos de plástico cinzento e vermelho tipo “mini-mercado”. Substituiu os baldes cheios de água fria onde refrescavam as hortaliças por um frigorífico! Os molhos de espinafres e de nabiças vêm agora embalados em sacos de plástico e têm sempre aquele aspecto fresquinho independentemente da hora do dia. Não há folhas que murchem naquele super-frigorífico…
Quem murchou fui eu. Eu devia ter adivinhado. As mudanças foram aos poucos. Primeiro foi o presunto. Ainda aqui há uns meses, o presunto era cortado na hora, como nós quiséssemos, às fatias, inteiro, grande ou pequeno. Agora quem quer presunto leva do embalado. Antes havia só uma marca de queijo (daquele para fatiar), o preferido pela maioria das clientes, e o fiambre era sempre do mesmo, do “melhor”. Com o balcão novo vieram aquelas variedades todas embaladas e já fatiadas.
Aquilo é plástico e alumínio e variedade a mais para os meus delicados olhos. Qualquer dia tanto faz ir ali como a um super-mercado confuso qualquer. Aquelas mudanças fizeram confusão e não foi só a mim. Já ouvi uma ou duas clientes a olhar com ar de dúvida para aqueles super molhos de nabiças e espinafres empertigados nos seus celofanes transparentes.
Primeiro foi uma das “habituées” da terceira idade.
- Ó Lurdes, isto presta para alguma coisa?
- Então não vê que sim, fresquinhos!
- Hum…
Claro, a velhota rendeu-se à evidência.
De outra vez foi uma empregada de alguém que tinha voltado à loja para devolver os espinafres.
- A minha patroa quer dos normais, não quer estes no plástico.
Pouco surpreendida e depois de um suspiro, a D. Lurdes pegou no telemóvel (vejam bem!) e ligou um número.
- Tou sim? É a Lurdes aqui da mercearia. Ò Drª, então a sua rapariga diz que não gostou do que eu lhe mandei?!
-… (não consegui ouvir, apesar de ter tentado)
- Mas agora vem tudo assim. E são frescos, então não viu?
- …
- Agora não tem terra porque são lavados antes de lhes porem o plástico. Prefere-os com terra?
- …
- É do que eu gasto na minha casa, e são de confiança, pode ficar descansada. Agora só tenho assim Drªa, mas experimente e depois diga-me.

Apesar de tudo, continua a haver razões para lá ir. Sobretudo a fruta, é sempre muito óptima como diria uma amiga minha. Os queijinhos frescos, o requeijão, as morcelas de arroz, as hortaliças…enfim, são boas, e as azeitonas que sabem a azeitonas.
Quando ela substituir o balde das azeitonas verdadeiras por aqueles frascos com bolas pretas gigantes que não sabem a nada, juro que nunca mais lá ponho os pés.


*Infelizmente esta expressão genial não é minha. Ouvi-a uma vez numas férias num restaurante algarvio. O homem estava à espera para almoçar há duas horas e lá desabafou bem alto que era inadmissível e que "isto é o caos urbanístico ao nível da restauração". Eu adaptei.

23 de dezembro de 2007

Um Santo Natal e uma suculenta couve Penca






Mercearia na Rua Gomes Freire, sábado, 12:00. A velhota é “habituée”. A D. Lurdes, a merceeira, dá-me aquele levantar de sobrancelha de quando se percebe que o caldo está entornado… A velhota tinha entrado com ares de quem passou mal a noite, rugas amarrotadas e papos feios nos olhos. Mirei-a. Baixinha e redonda, sacode-se de um lado para o outro, não pára quieta. Remexe nas hortaliças, espreita o balde das azeitonas, apalpa as mangas do Brasil, chega uma Bravo Esmolfe ao nariz, tudo a enjoa, senta-se no banco de madeira, suspira, levanta-se e olha para o assento, tira um lenço e limpa-lhe a sujidade invisível com ar de nojo, volta a sentar-se, levanta-se outra vez, abre caminho impertinente até ao expositor da rua, entra na loja aos empurrões, traz laranjas e tangerinas, deposita-as no balcão, volta às hortaliças, baixa-se até aos pés e descobre uma couve Penca.
Não era de supor que uma velhota rabona (rabina velha há-de ser rabona, não?), com ar de quem passou mal a noite, beiça caída e extra-queixo por muitos e muitos anos a infernizar a vida aos outros, fizesse esta lida toda de bico calado, pois não?! Enquanto cirandava, espalhava o que hoje se diria má onda pela mercearia. E fez-se silêncio, porque o levantar de sobrancelha da merceeira foi o sinal de que se ia cantar o fado:
- Ai não me diga nada ó Lurdes, do Natal, eu não quero ouvir falar no Natal, não quero. O Natal, ora o Natal, o que é que tem o Natal? Antes de eu nascer já havia Natal! E eu já tenho …anos (tossiu e não se percebeu a idade, eu acho que foi de propósito, mas devia ter 60). O Natal…ãh, ãh (gagueja, irrita-se), eu sei o que é o Natal, é porcarias na televisão o dia todo.. (acalma-se e cala-se por um momento, foi a altura em que cheirou a maçã Esmolfe) hum, hum, sim eu sei muito bem o que é o Natal. Andam praí a dizer Bom Natal a torto e a direito e o Natal não é nada disto. É um dia como ós outros, sempre foi e há-de ser. É para comer com a família? Eu como com a família nos outros dias, ahã, (aclara a voz com uma tossidela). Calou-se e pensei que talvez já tivesse saciado as raivas. Mas foi quando se baixou e percebeu que ainda havia uma couve Penca (para mim era uma couve portuguesa e ponto final) esquecida no caixote das hortaliças, que se deu o milagre.
– Ai ó Lurdes, é Penca? A velhota, quando levantou a fronha, já era outra. Fez aquela pergunta com uma alegria tão genuína, com um tom de voz tão macio, até infantil, que deixei escapar uma gargalhada. Então era só isto que era preciso para acabar com aquela rabugice insuportável, uma couve?! Ri-me com vontade da natureza da vida e da gente. Olhou-me desconfiada e, eu, que não queria estragar-lhe o momento, disse não faça caso, achei graça ao nome da couve, não conhecia, mas se é assim boa também queria uma é pena já não haver. Acho que ela comeu a minha desculpa, porque à saída desejou-nos “um Santo Natal” e aí então é que foi, até a plácida D. Lurdes deixou ver um sorriso.

8 de maio de 2007

"Come cenouras, que faz os olhos bonitos"...


- Os nabos são bons, dona Lurdes?, pergunta a velha dos olhos bonitos.
- Ainda ninguém se queixou, responde a merceeira, cansada…
- É o que eu como, nabos e cenouras, tem que ser bons, diz a velha dos olhos bonitos, com um tom azedo e rezingão.
- Não é por comer ramburgas (penso que ela queria dizer hambúrgueres) que eu tenho estes olhos, continua a velha, mudando o tom para o estilo gaiteiro, quando viu o homem entrar na mercearia.
O homem percebeu a deixa e até inchou. A velha dos olhos bonitos podia ser mãe dele, mas depois dos sessenta anos, deve ser indiferente ter 70 ou 80, pensei eu…
- E tem, e tem! Uns olhos bonitos como certas alentejanas têm, ou enganei-me?, respondeu o velhote, de repente mais alto, mais ufano, sorriso malandro, sacudindo com primor e olhar apurado a terra de umas cebolas, antes de as pôr no saco.
- E sou… de Garvão, atalhou a velha, levando a mão ora ao cabelo ora ao peito, toda risinhos…
E eu, abismada, pensei que, se aos 80 anos, esta velha resmungona, comedora de nabos e cenouras, ainda cora, realmente deve ser mesmo verdade que enquanto há vida há esperança.