Mostrar mensagens com a etiqueta velhos. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta velhos. Mostrar todas as mensagens

20 de fevereiro de 2009

Quem tem filhos e muitos netos vai ao Casino




Já me disseram que eu tenho uma “obsessão antropológica por velhas”. Eu não sei o que isso quer dizer, mas lá que me caem no goto, caem. Hoje, enquanto esperava pelo 6, fui surpreendida por um diálogo entre duas senhoras de idade, que faziam as contas aos ganhos e perdas de uma estreia no casino de Lisboa.
- …pois gostei muito, assim ainda ganhei, não se perdeu tudo.
- ganhou nada, eu ainda ganhei 5 euritos. Mas a dona Margarida se perdeu 20 euros nas máquinas e depois ainda foi lá acima perder 25 euros na mesa, como é que ganhou?
- ganhei pois, então, as contas não são essas! As contas fazem-se assim. Se tivesse ido à minha filha como é costume em vez de ir ao casino, perdia muito mais. Porque os miúdos pedem-me dinheiro e eu tenho que dar. Por cada um são 20 euros, ora se eles são três com a mais nova, faça-lhe as contas... . Depois, mais isto e mais aquilo, quem pagava o jantar ainda era eu, mais uns contos de reis. Por isso veja lá o que eu não ganhei no sábado no Casino.
E ria-se que nem uma perdida. Ou perdulária, ou poupada, não sei. Sei que a adorei, marreca e com bengala e tudo, ainda me piscou o olho enquanto subia a custo para o autocarro.

4 de abril de 2008

Que Deus a perdoe, à ti Arminda



Não sei o que me chama nas velhas, talvez a sua capacidade de surpreender a minha ignorância da vida. Só as velhas têm aquelas certezas todas e alguma razão para as ter. Podem ser amargas, matreiras, sábias, mansas, feras, loucas ou sãs, mas são sempre alguma coisa definitiva. As boas. Eu gosto de tentar imaginar o que as levou ali, àquele sítio tão definitivo da vida. Hoje lembrei-me da “ti” Arminda, acho que era Arminda, vizinha do meu avô nos entremeados de quintas, descampados e estradas novas por entre as casas velhas nos subúrbios quase aldeia da cidade. Sempre a vi vestida de preto, com lenço na cabeça e tudo, e por isso sabia que era viúva. Parava na janela da minha Paty, que evitava com a sua graça as maledicências da mais fervorosa das beatas. Morena, baixinha, redondinha, uma bolinha embrulhada em pano preto com uma boca pequenina de onde ouvi sair muitos “améns” e “deus me perdoe”. Aquela mulher seria a encarnação da santidade aos seus próprios olhos. Nunca faltava aos deveres de católica e levantava-se de madrugada para limpar a igreja e as imagens todas antes da missa das seis. Eu, uma impressionável miúda de 13 anos, tinha-lhe um certo temor quando a ouvia pregar moralidades à janela da minha Paty. Criticava as outras viúvas da rua por serem “gaiteiras”. A minha Paty explicou-me que a ti Arminda era de uma aldeia onde antigamente as viúvas vestiam de preto para toda a vida, e durante os primeiros dois ou três anos não podiam sair de casa, nem para estar com a família, nem sequer abrir as janelas, nem para estender a roupa. Se o fizessem “pareceria mal” e seria considerado uma “falta de respeito” ao marido. Lembro-me quando ela passou de “beata maligna” a “velha maluca” aos meus olhos. Era o “dia dos mortos”, 01 de Novembro, e ela ia ao cemitério. Bateu à janela para uns dedos de conversa com a minha Paty antes do autocarro chegar. Ia ter com três ou quatro viúvas amigas para cumprir mais uma obrigação: limpar a campa e pôr flores. Não que a do defunto dela precisasse, dizia, mão no peito, porque, em primeiro lugar, os restos mortais do marido falecido há trinta anos já não estavam numa campa, estavam depositados numa caixa num dos gavetões do cemitério. Em segundo lugar, porque o gavetão seria com certeza o mais limpo de todos. O bairro inteiro sabia-o, a ti Arminda ia ao cemitério todos os 365 dias do ano. O que eu não sabia, e o que me chocou profundamente, foi perceber que a ti Arminda tinha levado a outro nível as suas “obrigações” para com o marido e para com o que entendia serem os mandamento da Igreja. Abriu o saco de plástico que levava pendurado no braço e mostrou os objectos que eram a causa da sua cara de …sim, de enterro: Uma escova grande e outra mais pequena, muito gastas, uma garrafa de lixívia e panos.
- “Tem que ser”, disse, no seu rosto de sofrimento feliz, essa expressão facial doentia que alguns católicos antigos ostentam.
E depois, com um orgulho fanático nos olhinhos pretos e pequeninos:
- “É só uma vez por ano Dona M., mas sou a única. Tem que ser. Era o que faltava que não lavasse os ossinhos do meu santo Aníbal que Deus o tenha, coitadinho”.

23 de dezembro de 2007

Um Santo Natal e uma suculenta couve Penca






Mercearia na Rua Gomes Freire, sábado, 12:00. A velhota é “habituée”. A D. Lurdes, a merceeira, dá-me aquele levantar de sobrancelha de quando se percebe que o caldo está entornado… A velhota tinha entrado com ares de quem passou mal a noite, rugas amarrotadas e papos feios nos olhos. Mirei-a. Baixinha e redonda, sacode-se de um lado para o outro, não pára quieta. Remexe nas hortaliças, espreita o balde das azeitonas, apalpa as mangas do Brasil, chega uma Bravo Esmolfe ao nariz, tudo a enjoa, senta-se no banco de madeira, suspira, levanta-se e olha para o assento, tira um lenço e limpa-lhe a sujidade invisível com ar de nojo, volta a sentar-se, levanta-se outra vez, abre caminho impertinente até ao expositor da rua, entra na loja aos empurrões, traz laranjas e tangerinas, deposita-as no balcão, volta às hortaliças, baixa-se até aos pés e descobre uma couve Penca.
Não era de supor que uma velhota rabona (rabina velha há-de ser rabona, não?), com ar de quem passou mal a noite, beiça caída e extra-queixo por muitos e muitos anos a infernizar a vida aos outros, fizesse esta lida toda de bico calado, pois não?! Enquanto cirandava, espalhava o que hoje se diria má onda pela mercearia. E fez-se silêncio, porque o levantar de sobrancelha da merceeira foi o sinal de que se ia cantar o fado:
- Ai não me diga nada ó Lurdes, do Natal, eu não quero ouvir falar no Natal, não quero. O Natal, ora o Natal, o que é que tem o Natal? Antes de eu nascer já havia Natal! E eu já tenho …anos (tossiu e não se percebeu a idade, eu acho que foi de propósito, mas devia ter 60). O Natal…ãh, ãh (gagueja, irrita-se), eu sei o que é o Natal, é porcarias na televisão o dia todo.. (acalma-se e cala-se por um momento, foi a altura em que cheirou a maçã Esmolfe) hum, hum, sim eu sei muito bem o que é o Natal. Andam praí a dizer Bom Natal a torto e a direito e o Natal não é nada disto. É um dia como ós outros, sempre foi e há-de ser. É para comer com a família? Eu como com a família nos outros dias, ahã, (aclara a voz com uma tossidela). Calou-se e pensei que talvez já tivesse saciado as raivas. Mas foi quando se baixou e percebeu que ainda havia uma couve Penca (para mim era uma couve portuguesa e ponto final) esquecida no caixote das hortaliças, que se deu o milagre.
– Ai ó Lurdes, é Penca? A velhota, quando levantou a fronha, já era outra. Fez aquela pergunta com uma alegria tão genuína, com um tom de voz tão macio, até infantil, que deixei escapar uma gargalhada. Então era só isto que era preciso para acabar com aquela rabugice insuportável, uma couve?! Ri-me com vontade da natureza da vida e da gente. Olhou-me desconfiada e, eu, que não queria estragar-lhe o momento, disse não faça caso, achei graça ao nome da couve, não conhecia, mas se é assim boa também queria uma é pena já não haver. Acho que ela comeu a minha desculpa, porque à saída desejou-nos “um Santo Natal” e aí então é que foi, até a plácida D. Lurdes deixou ver um sorriso.

13 de setembro de 2007

Eu quero ser uma velha sem rugas na cabeça

Aquelas velhas já foram como eu
E pensar nisso
Não alivia a sensação de repulsa
Que a vista das suas pernas deformadas me provoca.
Não é a celulite que me incomoda
Nem tão pouco os seus poucos cabelos brancos
São velhas recém operadas
Algumas andam tortas
As suas mãos são nodosas e manchadas
Os seus cabelos são pintados ou branco-lilás.
Demoram-se no vestiário e na casa de banho
E exalam um insistente cheiro a pó-de-arroz.
A sua voz é fina como um fio de nylon
Das suas meias de descanso.
As velhas têm muitas queixas para fazer
E fazem-nas entre dentes ou em alta voz.
Mas são as silenciosas que me assustam
Murmuram bons-dias com bocas desconfiadas
E olhos inchados de solidões mal dormidas
Tratam-se por doutoras e senhoras ou meninas
E nunca riem.
No ginásio receitado pela fisioterapeuta
As velhas mancam, quase todas.
Às vezes há uma velha que parece mais nova
Chegou aos 76 com poucas rugas na cabeça.
Com ar de quem tem pressa,
Conta que o filho vai hoje lá a casa
E que na praça já não havia peixe
E que teve pena porque “o miúdo” gosta de peixe.
Se alguém tinha visto o “Goucha” ontem
Que lhe deu vontade de rir, o “malandro”
Confessou-me, entre risos, que nunca foi ao cabeleireiro
E que o segredo dos seus caracóis perfeitos
É um preparado de cerveja preta, aplicado de manhã (!)
A mais velha das mais velhas
Ostenta que vive!

Incomoda-me vir a ter as costas deformadas
Mas o que eu queria
Era ser uma velha sem rugas na cabeça.

12 de maio de 2007

Velhos sem cuidados nem carinho em 2006 - SCML

Há trinta e dois anos, um empresário português de “vincada personalidade e um especial talento para o comércio e as finanças” deixava em testamento à Santa Casa da Misericórdia de Lisboa “parte significativa dos seus bens” com a condição de aquela instituição cumprir a seguinte obrigação:
“…atribuir anualmente três prémios monetários, de montante de cincoenta mil escudos (Esc. 50.000$00) cada, às 3 pessoas que, na Nação e na opinião de júri criteriosamente escolhido, mais tenham contribuído, pelo seu esforço, trabalho ou estudos, para:
a) o cuidado e carinho dos velhos desprotegidos;
b) o progresso da medicina na sua aplicação às pessoas idosas;
c) progresso no tratamento das doenças do coração”.

A SCML cumpre esta obrigação desde 1987 e, este ano, será mais uma vez cumprida a entrega do Prémio Nunes Corrêa Verdades Faria - apelidos da mulher do empresário, senhora “de temperamento afectuoso, generoso e sensível, particularmente atenta aos artistas, idosos e desprotegidos”.

Só que, este ano, só serão entregues prémios - cujo valor monetário está actualizado e é hoje de 5 mil euros – pelas duas últimas alíneas.
O anúncio da atribuição dos prémios, publicado hoje no Expresso, refere que “não foi atribuído prémio” previsto na alínea a) “o cuidado e carinho dispensado aos idosos desprotegidos”.

Isto espanta-me e gostava de saber porquê. Será que houve um cataclismo que matou especificamente em Portugal e em 2006 todas as pessoas que prestaram cuidados e carinho aos velhos desprotegidos?!
O habitual é vir a razão da não atribuição de prémios explicitada no próprio anúncio de jornal. Normalmente a razão indicada é o júri ter concluído que as candidaturas não preenchiam os requisitos de qualidade exigidos.
O regulamento do prémio nada diz sobre motivos possíveis da não atribuição. Ora, não tornando públicos esses motivos no momento em que torna públicos os nomes dos outros galardoados, o júri sujeita-se às seguintes considerações:
Fico espantada que o júri escolhido pela SCML entre personalidades de “reconhecido mérito no âmbito da segurança social e da saúde, preferencialmente no domínio da gerontologia e da cardiologia” não tenha conseguido encontrar em 2006 uma única pessoa ou instituição, que, na Nação, como queria o benemérito Enrique Mantero Belard, tenha, pelo seu “esforço, trabalho ou estudos”, contribuído para “o cuidado e carinho aos velhos desprotegidos”.
Porque é isso que a mensagem do anúncio significa em última instância e é isso que é chocante. Que a SCML entenda como algo normal dizer que não houve quem tenha prestado cuidados e carinho aos velhos em Portugal. Eu perceberia que não tivesse sido atribuído o prémio pelo “progresso da medicina na sua aplicação às pessoas idosas”, por exemplo. Haveria imensas razões que poderiam justificar a falta de investigadores nessas áreas em Portugal...
Mas por favor! Que uma instituição que se chama de Misericórdia diga que não encontrou no país alguém que se tenha esforçado a fazer aquilo que ela diz que faz há 508 anos, é bastante engraçado…
Felizmente, o júri escolhido pela Santa Casa da Misericórdia enganou-se redondamente. Haveria muitas pessoas e muitas instituições no país a quem entregar a distinção.
Eu voto nos muitos anónimos que, não sendo personalidades mas apenas pessoas, dão voluntariamente horas dos seus dias a “cuidar e a dar carinho” aos velhos dos outros.

8 de maio de 2007

"Come cenouras, que faz os olhos bonitos"...


- Os nabos são bons, dona Lurdes?, pergunta a velha dos olhos bonitos.
- Ainda ninguém se queixou, responde a merceeira, cansada…
- É o que eu como, nabos e cenouras, tem que ser bons, diz a velha dos olhos bonitos, com um tom azedo e rezingão.
- Não é por comer ramburgas (penso que ela queria dizer hambúrgueres) que eu tenho estes olhos, continua a velha, mudando o tom para o estilo gaiteiro, quando viu o homem entrar na mercearia.
O homem percebeu a deixa e até inchou. A velha dos olhos bonitos podia ser mãe dele, mas depois dos sessenta anos, deve ser indiferente ter 70 ou 80, pensei eu…
- E tem, e tem! Uns olhos bonitos como certas alentejanas têm, ou enganei-me?, respondeu o velhote, de repente mais alto, mais ufano, sorriso malandro, sacudindo com primor e olhar apurado a terra de umas cebolas, antes de as pôr no saco.
- E sou… de Garvão, atalhou a velha, levando a mão ora ao cabelo ora ao peito, toda risinhos…
E eu, abismada, pensei que, se aos 80 anos, esta velha resmungona, comedora de nabos e cenouras, ainda cora, realmente deve ser mesmo verdade que enquanto há vida há esperança.