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29 de novembro de 2007

A melhor prenda (para mulheres cansadas de aturar os maridos)


Cortesia: fogacho

O marido de Vossa Excelência fuma? Ofereça-lhe cigarros. O seu marido tem problemas de colesterol? Ofereça-lhe um copioso banquete rico em gorduras saturadas. O seu marido é alcoólico? Ofereça-lhe uma caixa de Jameson. O seu marido é “junkie”? Há no mercado oferta variada de cocaínas e heroínas.
No caso de Vossa Excelência pertencer à percentagem muito reduzida de esposas a quem calhou um marido que não é parvo de todo, previna-se com argumentos sólidos e mostre-lhe a publicidade. O texto publicitário que se segue pode chegar.
O presente inesperado é o mais desejado. Parabéns!. V. Demonstrou ser uma pessoa moderna e de requintado bom gosto. O seu presente foi um verdadeiro achado. V. não lhe quis dar mais uma dessas coisas complicadas que nunca se usam. Deu-lhe uma prenda prática e original. Ofereceu-lhe os cigarros que Ele fuma nas novas caixas de dez maços da Kart.”
No caso do seu marido ser do tipo mesmo desconfiado, recorra enfim aos métodos ancestrais e ponha um batonzinho nos lábios. Faça-lhe uns olhares malandrecos e já agora use um vestidinho justo, (só se for rapariga esbelta como eu) na altura de abrir os presentes!

13 de novembro de 2007

sopa de puta fina

em ambiente sopeiro, não resisto a recordar uma das minhas sopas preferidas.
fazia-se ocasionalmente lá em casa quando havia preguiça para cozinhar. geralmente calhava ao domingo à noite, hora de neura.
sei que leva muito alho, pão duro, muitos coentros, azeite e ovos mexidos no final.
não demora mais do que meia hora.
parece sopa alentejana, mas na minha terra chama-se sopa de puta fina.

11 de novembro de 2007

Receita de sopa que ferve uma manhã inteira e onde se usam couves tenras que se mandaram apanhar na horta às primeiras horas da manhã

Não resisti a sublinhar algumas passagens.

"Num panelão de barro ou de esmalte, deitam-se alguns ossos de vaca, ossos de leitão assado (se os houver), um naco de presunto, 4 ou 5 cenouras, sal e pimenta. Cobre-se com água fria e deixa-se ferver durante uma manhã inteira. A meio da manhã, manda-se apanhar na horta 2 ou 3 couves tenras, as quais, depois de se terem lavado muito bem, ripam-se para dentro da panela. Uma hora antes de servir, deitam-se fatias de pão cortadas o mais fino possível, mas antes de se deitar o pão, retiram-se os ossos todos da sopa. A porção de pão varia conforme se queira sopa em caldo ou género sopa seca. Cerca de 30 minutos antes do almoço prova-se e tempera-se com uma boa chávena de molho de leitão e com mais uma pitada de sal, se necessário. Ferve sempre, desde as primeiras horas da manhã, até à hora de estarem todos à mesa, à espera dela."



A receita intitula-se "Sopa fervida como se faz na minha família", vem assinada pelo "Doutor Lopo Cancella de Abreu", médico, no nº 70 da revista de culinária Banquete, de Dezembro de 1965.
Se não me engano o autor da receita foi ministro do Estado Novo e era o marido da directora da Banquete, Maria Emília Cancella de Abreu

23 de outubro de 2007

O lápis azul, o tampax e a liberdade na Modas e Bordados dos anos 40


Capa da "Modas e Bordados, Vida Feminina", início da década de 40.

A histórica “Modas e Bordados” fez entre 1912 e 1977 a alegria das mulheres portuguesas das classes média e alta, que encontravam nela não apenas conselhos sobre as artes domésticas mas um espaço de alguma liberdade. A política também passou por ali, metida entre as receitas e dicas sobre saúde, dietas, modas e signos, poesia, contos e entrevistas a actrizes dos filmes do Vasco Santana ou a respeitáveis senhoras casadas que transmitiam a visão tradicional da mulher e a visão que se “deveria” ter do mundo. Surpreendeu-me que o Estado Novo considerasse necessário mandar ao lápis azul uma revista que nem sequer era vendida nas bancas mas como suplemento de um jornal, “O Século”, e que na aparência tratava de inofensivas “coisas de mulheres”. Afinal não seriam assim tão parvos…



Por outro lado... terem deixado passar este anúncio aqui em baixo é uma coisa espantosa. Será que perceberam?! (Esta revista é igualmente do início da década de quarenta)


Vale a pena clicar na foto para ler a mensagem publicitária. "Nem alfinetes, nem chumaços", "Tampax quere dizer...liberdade (em itálico no original)". Claro que deixar os "chumaços e os alfinetes" seria uma libertação para as mulheres. Noutro sentido, "liberdade" e "invisível" são as duas únicas palavras em itálico no anúncio. Muito provavelmente é coincidência, mas eu gosto de pensar que não é. Não sei se naquela altura já era assim, mas alguns anos mais tarde, "liberdade" foi uma palavra proibida até nas letras das canções.

5 de outubro de 2007

A moral num anúncio a fogões de 1965

As revistas de culinária nem sempre surpreendem por anúncios de carácter duvidoso. Em 1965, a revista Banquete, dirigida por Maria Emília Cancella de Abreu (de quem voltarei a falar), trazia um anúncio que prometia o "melhor fogão nacional", um tal de "Presmalt". Desta vez, o slogan é sóbrio e até inspirador. Dizer que "Escolher Presmalt é proceder com acerto" traduz um verdadeiro juízo de carácter moral. Quem comprar Presmalt pode ir deitar-se de consciência tranquila, pode dormir o sono dos justos, porque procedeu com acerto. Eu não sei se ainda se fabricam os fogões Presmalt, mas gostava de saber porque compraria de certeza. Não há nada que pague a certeza absoluta de ter procedido com acerto, sobretudo porque isso é uma coisa que raramente me acontece. Não me lembro aliás de alguma vez ter pensado "Trincadeira maria, tu hoje procedeste com acerto". Não há qualquer comparação entre ter alguém a dizer-me "trincadeira, descansa que fizeste bem" e ouvir a solene e sólida convicção de ter procedido com acerto. Reparo que já repeti vezes demais o slogan da Presmalt, é só mais uma vez: "Proceder com acerto"...ai que descanso.