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29 de novembro de 2007

A melhor prenda (para mulheres cansadas de aturar os maridos)


Cortesia: fogacho

O marido de Vossa Excelência fuma? Ofereça-lhe cigarros. O seu marido tem problemas de colesterol? Ofereça-lhe um copioso banquete rico em gorduras saturadas. O seu marido é alcoólico? Ofereça-lhe uma caixa de Jameson. O seu marido é “junkie”? Há no mercado oferta variada de cocaínas e heroínas.
No caso de Vossa Excelência pertencer à percentagem muito reduzida de esposas a quem calhou um marido que não é parvo de todo, previna-se com argumentos sólidos e mostre-lhe a publicidade. O texto publicitário que se segue pode chegar.
O presente inesperado é o mais desejado. Parabéns!. V. Demonstrou ser uma pessoa moderna e de requintado bom gosto. O seu presente foi um verdadeiro achado. V. não lhe quis dar mais uma dessas coisas complicadas que nunca se usam. Deu-lhe uma prenda prática e original. Ofereceu-lhe os cigarros que Ele fuma nas novas caixas de dez maços da Kart.”
No caso do seu marido ser do tipo mesmo desconfiado, recorra enfim aos métodos ancestrais e ponha um batonzinho nos lábios. Faça-lhe uns olhares malandrecos e já agora use um vestidinho justo, (só se for rapariga esbelta como eu) na altura de abrir os presentes!

23 de outubro de 2007

O lápis azul, o tampax e a liberdade na Modas e Bordados dos anos 40


Capa da "Modas e Bordados, Vida Feminina", início da década de 40.

A histórica “Modas e Bordados” fez entre 1912 e 1977 a alegria das mulheres portuguesas das classes média e alta, que encontravam nela não apenas conselhos sobre as artes domésticas mas um espaço de alguma liberdade. A política também passou por ali, metida entre as receitas e dicas sobre saúde, dietas, modas e signos, poesia, contos e entrevistas a actrizes dos filmes do Vasco Santana ou a respeitáveis senhoras casadas que transmitiam a visão tradicional da mulher e a visão que se “deveria” ter do mundo. Surpreendeu-me que o Estado Novo considerasse necessário mandar ao lápis azul uma revista que nem sequer era vendida nas bancas mas como suplemento de um jornal, “O Século”, e que na aparência tratava de inofensivas “coisas de mulheres”. Afinal não seriam assim tão parvos…



Por outro lado... terem deixado passar este anúncio aqui em baixo é uma coisa espantosa. Será que perceberam?! (Esta revista é igualmente do início da década de quarenta)


Vale a pena clicar na foto para ler a mensagem publicitária. "Nem alfinetes, nem chumaços", "Tampax quere dizer...liberdade (em itálico no original)". Claro que deixar os "chumaços e os alfinetes" seria uma libertação para as mulheres. Noutro sentido, "liberdade" e "invisível" são as duas únicas palavras em itálico no anúncio. Muito provavelmente é coincidência, mas eu gosto de pensar que não é. Não sei se naquela altura já era assim, mas alguns anos mais tarde, "liberdade" foi uma palavra proibida até nas letras das canções.

5 de outubro de 2007

A moral num anúncio a fogões de 1965

As revistas de culinária nem sempre surpreendem por anúncios de carácter duvidoso. Em 1965, a revista Banquete, dirigida por Maria Emília Cancella de Abreu (de quem voltarei a falar), trazia um anúncio que prometia o "melhor fogão nacional", um tal de "Presmalt". Desta vez, o slogan é sóbrio e até inspirador. Dizer que "Escolher Presmalt é proceder com acerto" traduz um verdadeiro juízo de carácter moral. Quem comprar Presmalt pode ir deitar-se de consciência tranquila, pode dormir o sono dos justos, porque procedeu com acerto. Eu não sei se ainda se fabricam os fogões Presmalt, mas gostava de saber porque compraria de certeza. Não há nada que pague a certeza absoluta de ter procedido com acerto, sobretudo porque isso é uma coisa que raramente me acontece. Não me lembro aliás de alguma vez ter pensado "Trincadeira maria, tu hoje procedeste com acerto". Não há qualquer comparação entre ter alguém a dizer-me "trincadeira, descansa que fizeste bem" e ouvir a solene e sólida convicção de ter procedido com acerto. Reparo que já repeti vezes demais o slogan da Presmalt, é só mais uma vez: "Proceder com acerto"...ai que descanso.

3 de outubro de 2007

O tratamento da condição feminina nos anos 70

Descobri há dias que em 1978 tentavam impingir à “mulher moderna” um produto “desinfectante-desodorizante” para a “higiene íntima” que garantia o “aroma da higiene” mesmo “nos dias especiais do mês”. Chamava-se Dystron.

Numa análise à dita mensagem publicitária, surgem-me ao espírito várias interrogações.
Por exemplo, ao que é que se referem precisamente quando falam nos “dias especiais do mês”? É que de acordo com uma breve sondagem feita a mulheres modernas aqui da chafarica, não há dia mais especial no mês que o dia de pagamento. Será que precisamos de cheirar a lavadinho para receber o salário? E porquê só nesses dias? E isto leva-me a outras considerações. O que significa em concreto a expressão “aroma da higiene”? Isto cheira-me a gato por lebre. Olhem que rica descoberta publicitária. Mas tomar banho para quê se podemos cheirar a lavado sem ter a chatice de ir à banheira?! Modernices dos anos 70, de certeza. O anúncio, que pode ser encontrado no número especial da Teleculinária de Dezembro de 1978, é encabeçado por uma fotografia de rosto de uma “mulher moderna” pintalgada à última moda: