29 de março de 2007

A costureirinha e sua tesoura



Podes fazer o que quiseres, se tiveres, como tens, uma tesoura gigante nas mãos. Vestir um vestido às flores, deitar-te nas tábuas desse chão envernizado e esperar iludir quem passa, encenando uma costureirinha muito “arty”, numa cidade muito “indie”. O problema é seres apenas muito nova. Deixas que a luz te ilumine as perfeições, enquanto, envergonhada, tapas o rosto com os braços porque a coragem não é algo que se compre a metro na retrosaria. Engalanas a foto com ares de provocação mas não foi desta que disseste o que querias dizer, porque ainda não sabes o que queres dizer. Quando souberes, avisa. Entretanto, a foto disse outra coisa a alguém. E só consigo pensar que às vezes acontece que a pergunta é a sua resposta.

rtp...

... essa caixa de pandora.

dn de hoje.

28 de março de 2007

i am a very stylish girl


uma colagem de ana ventura.

um retrato social

entre o lixo que é depositado na rtp - assim de repente lembro-me desse concurso patético dos grandes portugueses - ainda há pérolas.
ontem estreou o programa de antónio barreto, um retrato social sobre portugal.
quase chorei ao ver as mudanças (para melhor, claro) que ocorreram na saúde em relação às crianças, à natalidade, às condições que as mulheres têm hoje nas maternidades.
muito bem estruturado, com textos muito simples, claros, cheios de estatísticas, mas nem por isso maçadores, que respiram e deixam respirar.
só pelo primeiro episódio eu diria que toda a série devia ser obrigatória nas universidades. em todos os cursos.

26 de março de 2007

uma polaroid...


...para um domingo que já se foi.
querida trincadeira: as polaroids não são minhas, mas é como se fossem uma vez que gosto tanto delas. um dia ponho aqui as minhas, infinitamente menos artísticas.

21 de março de 2007

Abrolhei!


abrolhar
v. intr. deitar abrolhos; brotar; rebentar; (fig.) começar.
(De abrolho + -ar)
Diz o profile que o abrolhamento da Trincadeira decorre na segunda quinzena de Março...

Ai que bonita manhã de Primavera! Grrrr....


Primavera é acordar assustada com o toque do telefone às dez e meia com alguém histérico a dizer que tenho que estar às onze num sítio que fica a uma hora de distância. Primavera é saltar da cama para dentro das calças de ontem e sair de casa sem banho tomado e cabelo despenteado. Atravessar a estrada a correr, roubar uma maçã das caixas à porta da mercearia, entrar no táxi já sem fôlego…(uffff) Apesar de tudo, a Primavera quase se salvou ainda antes da hora de almoço por causa da simpatia do motorista: “Bom dia, menina, que bonita manhã de Primavera, não é?” É, quer dizer, podia ter sido uma bonita manhã de Primavera.

um post pela primaVera, pronto

foi feito por uma tal de geninne.



19 de março de 2007

A Bela Acordada

"Era uma vez uma mulher que tão depressa era feia era bonita, as pessoas diziam-lhe:- Eu amo-te.E iam com ela para a cama e para a mesa.Quando era feia, as mesmas pessoas diziam-lhe:- Não gosto de ti.E atiravam-lhe com caroços de azeitona à cabeça. A mulher pediu a Deus: - Faz-me bonita ou feia de uma vez por todas e para sempre. Então Deus fê-la feia. A mulher chorou muito porque estava sempre a apanhar com caroços de azeitona e a ouvir coisas feias. Só os animais gostavam sempre dela, tanto quando era bonita como quando era feia como agora que era sempre feia. Mas o amor dos animais não lhe chegava. Por isso deitou-se a um poço. No poço, estava um peixe que comeu a mulher de um trago só, sem a mastigar. Logo a seguir, passou pelo poço o criado do rei, que pescou o peixe. Na cozinha do palácio, as criadas, a arranjarem o peixe, descobriram a mulher dentro do peixe. Como o peixe comeu a mulher mal a mulher se matou e o criado pescou o peixe mal o peixe comeu a mulher e as criadas abriram o peixe mal o peixe foi pescado pelo criado, a mulher não morreu e o peixe morreu. As criadas e o rei eram muito bonitos. E a mulher ali era tão feia que não era feia. Por isso, quando as criadas foram chamar o rei e o rei entrou na cozinha e viu a mulher, o rei apaixonou-se pela mulher. - Será uma sereia? - perguntaram em coro as criadas ao rei.
- Não, não é uma sereia porque tem duas pernas, muito tortas, uma mais curta do que a outra, respondeu o rei às criadas. E o rei convidou a mulher para jantar. Ao jantar, o rei e a mulher comeram o peixe. O rei disse à mulher quando as criadas se foram embora: - Eu amo-te. Quando o rei disse isto, sorriu à mulher e atirou-lhe com uma azeitona inteira à cabeça. A mulher apanhou a azeitona e comeu-a. Mas, antes de comer a azeitona, a mulher disse ao rei: - Eu amo-te. Depois comeu a azeitona. E casaram-se logo a seguir no tapete de Arraiolos da casa de jantar."

In Adília Lopes: Obra, Lisboa, 2001

16 de março de 2007

fado dos cheirinhos (um prato de iscas com elas)

ai que cheirinho tem o lindo
caldo verde que tu trazes nos teus olhos.
ai que cheirinho tem o alecrim
da esperança que tu me atiras aos molhos.
ai que cheirinho têm as roupas de linho
que tu estendes nas janelas.
ai que cheirinho gosto mais de amor contigo
do que das iscas com elas.

tua boca cheira a cravo e teu corpo a segurelha.
quando cheiro o cabelo, cheiro uma rosa vermelha.
tens um cheirinho a hortelã na pimenta das palavras.
quando acordas de manhã tens tempero de ervas bravas.

tens um cheiro a erva doce mesmo na ponta dos dedos.
e és já como se fosse um cravinho de segredos.
há um cheiro a madrugada nas colinas dos teus seis.
e uma amora perfumada nos teus belos lábios cheios.

teu corpo cheira a maçã.
e até o nosso filho quando nascer amanhã há-de cheirar a tomilho.
porque me cheiras tão bem desde o dia em que te vi?
no fundo, sabes muito bem.
é porque cheiras a ti!

de "receitas de fado".

14 de março de 2007

Ajudem-me a tornar a vida da minha vizinha num Inferno


Preciso de sugestões para tornar a vida da minha vizinha de cima um inferno. A velha é estúpida, teimosa, mal-intencionada, faz-se de santa mas fá-la pela calada. Além disso, quase não tem cabelo e é tão feia que me ofende a vista.
Já tínhamos chegado a acordo que estenderia os seus lençóis rendados de maneira a que não me tapasse as janelas. Cumpriu durante 15 dias e depois fez-se esquecida. A vingança foi queimar-lhe “acidentalmente” com o meu cigarro o lençol mais insultuoso que já vi: Uma coisa nojenta de flanela castanha já meia descorada pela lixívia. (Como é que é possível um par de velhos sujar os lençóis ao ponto de ser preciso pô-los na lixívia?!).
Bem, tenho que explicar que moro num primeiro andar com terraço e que quando a velha estende os lençóis do lado errado basta-me andar em pé para ter que me baixar se quiser passar ao outro lado do terraço.
A velha pediu-me explicações e eu cinicamente disse-lhe que não me lembrava do incidente, mas que achava normal porque se fumo no terraço e se os lençóis me tapam a passagem é natural que tivesse lá tocado o cigarro sem reparar.
Lá mordeu os lábios e percebeu a mensagem. Passou a pendurá-los (muitos lençóis lava a velha, é impressionante) do outro lado mas a festa só me durou mais uns meses.
Desde que me cansei de lhe pedir que estenda a porcaria dos lençóis do outro lado para não me tirar a luz das janelas, nem me obrigar a baixar a cabeça sempre que quero ir ao terraço, e isto já há uns três anos, passámos à fase da guerra aberta.
Pão com manteiga, terra, restos de comida, salpicos de produtos para as minhas plantinhas, e até pêlos de gato, já lá tudo foi parar em momentos de fúria.
Confesso que fui mesmo uma pessoa horrível quando fui lavar a liteira do gato e arranjei maneira daquela areia mijada lá ir parar “sem querer”, não me perguntem como.
Mas memória de velha deve ser de muito curto prazo e passados uns meses dos “alertas” lá voltava ao mesmo.
A pontaria já estava bem treinada mas entretanto descobri (porque a ouvi a falar sozinha) que, apesar de tudo, era o cheiro a tabaco nos lençóis que a chateava mesmo.
Pronto, foi o que quis ouvir. Instalei a cadeira mais confortável mesmo juntinho à porta do terraço e era aí que me sentava quando ela vinha estender os lençóis do lado errado mais uma vez. Eram momentos recompensadores, garanto.
Ao sábado depois de almoço, hora certa da velha estender a roupa, lá me sentava a acender o cigarro. Cheguei a acender vários cigarros sem os fumar só para defumar o lençol!
Tinha descoberto a fórmula certa, porque na segunda máquina de roupa (eu desconfio que a velha lava roupa para fora, não é possível!) já estendia os lençóis do lado certo.
Só que hoje, que é quarta-feira e estou de folga, abri a porta da cozinha e dei de caras com o lençol mais comprido que já vi na minha vida escorrendo água para cima da minha roseira preferida!
Como não fumo há mais de uma semana e assim pretendo continuar, acabou-se a arma da tabaqueira, o que é que eu faço agora?! Vesti-me e fui lá acima tocar-lhe à campainha.
Pedi-lhe pela cagagésima nona vez que me estendesse a roupa mais comprida do outro lado, por causa da luz, das flores no parapeito da minha janela, por causa da passagem, e disse-lhe que era um bocado cansativo ter que repetir as mesmas coisas de mês a mês.
E ela, ratazana de esgoto, disse-me só que sim senhora, que para a próxima não se havia de esquecer e fechou-me a porta na cara.
Eu percebo que uma velha que nunca sai de casa, tenha como únicas alegrias na vida ver o Você na TV no máximo volume e lavar roupa repetidamente só para me ver arreliada, o que até teria a sua piada se não se passasse comigo.
Só que eu preciso de sol nas minhas janelas e já não tenho a arma do tabaco. Ajudem-me por favor, dêem-me sugestões de como tornar a vida da minha vizinha de cima num Inferno!!!

13 de março de 2007

a arte de ser mecenas

lendo a imprensa do fds fico a saber que:
ser mecenas é ser uma força de pressão junto da comunicação social, tendo meia página para ameaçar o governo de cortar o "donativo" a um teatro nacional se o director deste não continuar no mesmo cargo.
ser mecenas é participar em reuniões ministeriais sobre o futuro daquele teatro e manifestar preocupação sobre o futuro daquele espaço cultural.
mecenas (s.m.) indivíduo protector das letras, das artes ou das pessoas doutas.

10 de março de 2007

Gato constipado

O meu gatito tá constipado!!!
Mas eu sou uma péssima enfermeira. É ele a espirrar e eu a rir, tadito...é tão cómico.

brava dança dos heróis


filme imperdível para quem quer saber mais sobre música portuguesa.
apesar de ter alguns defeitos, como a falta de diversidade de depoimentos, o "brava dança" reúne imagens inéditas e algumas explicações sobre a vida dos heróis do mar.
mas fica-se com a sensação de que havia mais para contar.

5 de março de 2007

EMEL: A multa certa em Lisboa


A EMEL, temos que reconhecer, tem um grandessíssimo sentido de humor. Começou pelo seu "slogan": "EMEL, o lugar certo em Lisboa". Ai lá certo é, é mais que certa a multinha, o lugar é que não. Ali entre Picoas e Marquês, os lugares são sempre incertos mas podemos sempre contar com a eficácia dos Emélios para multar. Agora, se for dia de jogo no Estádio da Luz, já vale tudo e não os vejo a puxar do bloquinho quando a Segunda Circular passa a ser parque de estacionamento. A Polícia anda por lá, certamente a passear, ver as vistas...EMELios nem vê-los. Mas a cereja no bolo são aquelas bandeirolas da EMEL penduradas nos quiosques da cidade: "Lisboa sem stress". É zen, muito zen.

2 de março de 2007

O tio Esvaldo, a mulher dele e a sobrinha



“Perrdi tudo ô cara! Perrdi tudo… Mi vê aí um uísqui”, atirou o brasuca de cabelos brancos ao barman do hotel. O tom era desesperado, de um homem que, enfim, só podia ter perdido realmente tudo. Instalada numa mesa mais ao canto, eu podia ouvir nas calmas os desabafos do homem. Fui mentalmente construindo a história. Coitado, os negócios correram-lhe mal cá, deve ter investido muito e perdeu tudo. Ou, se calhar, veio cá de férias, foi ao casino, bebeu umas a mais, apostou e perdeu tudo. Ou perdeu a carteira com tudo lá dentro. Que teria sido? O barman, homem de 70 anos, curvado pelo peso de anos a servir copos de licores e uísques ao balcão, ouvia e abanava a cabeça em sinal de compreensão e pena. E reparei que em vez do “uisqui”, serviu-lhe um café. O brasileiro não deve ter dado pela diferença, porque bebeu sem reclamar, em silêncio, de olhar um bocado esgazeado fixo na janela. Repetiu mais umas vezes a mesma frase “perdi tudo” e eu comecei a ficar com comichões no estômago. Fui ao balcão, pedi um chá ao velhote, ele assentou que sim com um sorriso e esperei. A minha ideia era que o brasileiro metesse conversa, que me desse a deixa para eu lhe perguntar mas afinal o que é que o senhor perdeu. E assim foi: - “Cê é portuguesa, né?”


- “Sou sim”, respondi, e sorri-lhe na expectativa.


- “Hoje eu perdi tudo” …o olhar esgazeado continuava e eu esperei.


- “Hoje eu perdi minha mulher...”, e levou as mãos à cabeça.


Fiquei martirizada por ter sido tão materialista, primeiro. Afinal o homem perdeu alguém que amava, não tinha nada a ver com grana. Depois disto, o barman pôs-me à frente um café. Eu, que estava atordoada com a história do homem (bem feita, quem manda meter-me na vida dos outros?!), fiquei depois confusa. Eu achava que tinha pedido um chá branco…mas bebi o café mantendo uma espécie de silêncio respeitoso. Como se a notícia de uma morte tão profundamente sentida por alguém que está a um metro de distância impusesse esse respeito. O barman, que afinal não era surdo nem nada, saiu discretamente. Voltou com uma mulher, uma espaventosa brasileira de pouco mais de vinte anos, cabelos louros, “necessaire” dourado na mão, muito bonita e também muito ordinária.


- Ô merda, cê vem aqui, não tou mais ti aguentando. Qui loucura, cara! Quero ir embora. Vai pagar essa merda de hotéu e vamo embora logo ô velho”.


Eu ainda estava a assimilar e ela resolveu desabafar comigo.


- Ele ti incomodou? Cê mi disculpa viu, é meu tio qui está muito doente. Nós veio a Portugáu pra ver se curava ele, mais num tem jeito.


- Não me incomodou nada. Tive pena, ele disse que a mulher tinha morrido.


- Poisé. O meu tio Esvaldo (!) faz isso toda a hora, mas é mintchira. Ele tá ficando louco, o coitado. A mulher dele morreu faz um tempão já. Tá morta e enterrada lá em São Paulo faz mais de deiz ano já. Pra você ver, eu me preocupo com a saúde di meu tio.


Despachei rapidamente a garota de programa e fui-me sentar um bocado surpreendida por a historinha do tio que viaja com sua sobrinha ainda ser coisa corrente nos dias que correm.





28 de fevereiro de 2007

Cadáver esquisito II

Quem escreve à noite diz hoje e ontem e sempre, acordes com luz do dia ou ao anoitecer, por mais inútil que te sintas, és bela e única. À luz do dia brilhas como cobre, duro e martelado, velho no tempo. Estás a ficar escura - há quem diga oxidada. Um dia, abriste os olhos e a luz era demasiado branca, mas furou o meu estômago feito chão, a terra vermelha que aqui não há, aquela de que fala o meu pai, que a mim não me dá paz, só o cheiro da terra molhada, e penso nela como um ser vivo e espero por um dia melhor. O adjectivo inibe-me. Prefiro o nome. Nomine. Abre a porta, deixa entrar, voa sem medo. Da próxima vez que vieres, traz um sorriso e a alma lavada, se fazes favor. E tudo o que disseres, quero que o sintas primeiro e que, por uma vez, me faças sentir especial. "Que eu te mostre que sou especial!". Raramente o dizemos, nem a nós próprios. Mas quando dizes adeus, de repente é a palavra mais usada. Até à exaustão. Em relação a ti. Até à tua náusea. Cansados como cavalos velhos, sem fôlego como adolescentes. Adolescentes somos sempre e iguais a nós mesmos, precisamos sempre de olhar os outros e de nos reconhecermos neles, mesmo que não seja fácil, e nunca é fácil, ao contrário do que nos fazem crer.

daniel blaufuks


27 de fevereiro de 2007

Pernas cansadas, charutadas e pianadas

Quiseram os senhores de fato que a malta que “anda por fora” tivesse acesso à wireless da PT nos respectivos portáteis para mais rapidamente “despachar serviço”. Por causa disso, ando sempre com um desdobrável azul que me indica os locais onde posso ter acesso à dita net rápida sem fios nesta linda cidade de Lisboa.
Ora, excluindo por motivos óbvios as estações de serviço da Galp, os CTT, os cinemas Lusomundo e o Holmes Place, restam-me os mais de 40 hotéis, seis centros comerciais e sete cafés. Também há em três ou quatro jardins, mas enquanto não instalarem uma tomada nas plantinhas, não poderei ali ligar o meu PC, que a máquina anda com a bateria fraca.
Depois deste bonito intróito que serviu apenas para situar os leitores, passo ao que interessa. Hoje, mandei serviço do Tivoli, um cinco estrelas em plena Avenida da Liberdade, com um átrio bastante grande, cadeirões e sofás confortáveis ocupados por homens de negócios fumando charuto e descontraídos turistas de cabelo louro.
Entre gente para trás e para a frente ao telemóvel, conversas acesas sobre dossiers certamente de importância suprema, um casal de namorados a descansar as pernas antes do jantar e uns vinte engenheiros das telecomunicações (certezinha que eram) em grandes uísques e charutos (paga a empresa, certezinha) ninguém se dignou a olhar nem que fosse por instantes para o pianista que se afadigava a dar música àquele ambiente.
Eis que, depois de uma hora de grandes clássicos mal-amanhados, o pianista levanta-se devagar, arruma o banco no lugar, fecha a pasta com as folhas de música, dá uma olhadela rápida ao átrio enquanto abotoa o casaco, e pira-se.
A diferença, agora que se foi, é ouvirem-se melhor as gargalhadas dos turistas, os tlins dos copos nas mesas, e distinguirem-se o inglês e o espanhol das conversas.
O ambiente não melhorou por ele ali estar, nem piorou por se ir embora. Aqui está uma peça que gostava de fazer. Porque é que há pianadas nos átrios de hotéis e centros comerciais? Quem é que disse que a música ambiente é uma boa ideia? Porquê um pianista e não um violinista ou até um flautista? A plateia gosta? Os clientes queixam-se, aplaudem ou ignoram? O pianista aprecia o que faz? Porquê? No átrio do cinco estrelas da Avenida ou junto dos restaurantes no Atrium do Saldanha, os pianistas são camaleões. Confundem-se com o ambiente, não fazem mal nem agridem. Percebo que a sua função é serem invisíveis enquanto deixam sair a música. Mas…who cares?

22 de fevereiro de 2007

Tenho Um Primo Convexo

Tenho um primo convexo
Fadado para amnistias
Em torno de ele nadam
Plantas carnívoras
Agitando como plumas
As cordas violáceas
O meu primo dormita
Glu glu entre palmeiras
Suspenso numa rede
De suor e preguiça
Corvos bicam-lhe os pés
Trincam-lhe os calos
Enquanto a tarde jaz
E a mao suspende
O gesto de acordá-lo
E a terra treme
Mas de nada o meu primo se apercebe

zeca afonso

19 de fevereiro de 2007

Patas pretas


No colo quente de uma casa cheia, o meu gato aponta as letras certas com as suas patas pretas. Nele, quase tudo está escrito desde o princípio, porque é um gato.

13 de fevereiro de 2007

um fadinho do chico


Oh, musa do meu fado
Oh, minha mãe gentil
Te deixo consternado
No primeiro abril

Mas não sê tão ingrata
Não esquece quem te amou
E em tua densa mata
Se perdeu e se encontrou

Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um imenso Portugal

Sabe, no fundo eu sou um sentimental
Todos nós herdamos no sangue lusitano uma boa dose de lirismo
Mesmo quando as minhas mãos estão ocupadas em torturar, esganar,trucidar

Meu coração fecha aos olhos e sinceramente chora...''
Com avencas na catinga
Alecrins no canavial
Licores na moringa
Um vinho tropical

E a linda mulata
Com rendas do Alentejo
De quem numa bravata
Arrebato um beijo

Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um imenso Portugal

Meu coração tem um sereno jeito
E as minhas mãos o golpe duro e presto
De tal maneira que, depois de feito
Desencontrado, eu mesmo me contesto

Se trago as mãos distantes do meu peito
É que há distância entre intencão e gesto
E se o meu coração nas mãos estreito
Me assombra a súbita impressão de incesto

Quando me encontro no calor da luta
Ostento a aguda empunhadura à proa
Mas o meu peito se desabotoa
E se a sentença se anuncia bruta

Mais que depressa a mão cega executa
Pois que senão o coração perdoa''
Guitarras e sanfonas
Jasmins, coqueiros, fontes
Sardinhas, mandioca
Num suave azulejo
E o rio Amazonas
Que corre Trás-os-Montes
E numa pororoca
Deságua no Tejo

Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um imenso Portugal
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um imenso Portugal

isto tudo para dizer que dava o dedo mindinho do pé para estar em madrid a ver o chico buarque a cantar este fado com o carlos do carmo e com o júlio pereira no bandolim.

7 de fevereiro de 2007

posto de escuta




a ouvir com atenção nas próximas semanas.

31 de janeiro de 2007

encher a alma



o ano ainda agora começou,, mas digo já que o concerto deles no alquimista está entre os melhores.
não há alma que aguente uma música desta que agora nos leva num carro vermelho, reluzente, enorme pela route 66 e de repente nos deixa num degrauzito de escada em alfama, a ouvir um amolador.
há um carlos paredes eléctrico, uma versão de "temptation" de tom waits, com uma pulseira de guizos, uma maraca a bater nas cordas da guitarra e um kazoo.
quem, senão eles, para fazer uma música a partir de um assobio de vasco santana no pátio das cantigas?
pedro gonçalves, desengonçado, num fato à "la padrinho", e tó trips escondido debaixo de uma cartola à frente de um molho de cravos vermelhos e um adufe que ficou por tocar.

parece que vão ao maxime no dia 03 de março, mas, porra, não espalhem a notícia. eih?

26 de janeiro de 2007

isto não é uma fotografia




veneza vista por jacopo robusti aka tintoretto.

25 de janeiro de 2007

Política Sinaleira

Diz-se que fazer política é fazer escolhas, mas por estes tempos noto que fazer política pode ser apenas querer/exigir/defender/desejar e enfim…dar ou não dar um sinal. Mas qual é o impacto real de um sinal? É fácil o jogo do sinal, querem ver?
Político 1 – Ora dê-me lá um sinal homem!
Político 2 – Toma lá o sinal.
Político 1 – Ah bom, agora estou mais descansado.
O problema do sinal é que pode ter demasiados significados:
No dicionário, o sinal pode ser um indício, um símbolo, um atributo, um testemunho, uma comprovação, uma prova, uma característica, uma manifestação, uma exteriorização, uma indicação, uma revelação, um prenúncio, um prognóstico, um anúncio. Pode ser uma fita estreita para marcar um livro e pode ser uma marca. Pode ser um vestígio e até uma pinta na pele.
O sinal é afinal muita coisa mas não é uma escolha, diz o dicionário. Eu, como sou generosa, admito que o sinal possa ser uma escolha envergonhada/tímida/cobardolas. Nos meus dias de cinismo, digo que o sinal é o adiar da escolha.

o cadáver esquisito de quarta-feira





sou uma flecha na fantasia,
mas naquela manhã o cabelo dela
incandesceu.
e voltou tudo ao mesmo.
ela acordou na cama enorme, vazia, espreguiçou-se.
ninguém, para variar. mas hoje vai ser um dia
bom, pensou.
gostava de mandar
em todos. sentia-se o arrepio. calaram-se e ela
disse em segredo: "vais morrer
sozinho".
Estamos sempre sós, sós quando
nos falam, menos sós quando
nos tocam. o cartaz dizia: "há
pipis" e moelas que estavam tão, tão picantes.
tinha a língua a arder e tudo
queimava.
e agora? já não sei o que
dizer...
coisas que os olhos
já antes tinham dito. no entanto
ele fechou a porta e nesse momento escureceu.
"Foda-se", disse, "fundiu-se a
lâmpada".
quem os pariu que os abane...
e que os entenda, que eu já não posso, ou talvez não saiba, ou
talvez seja tarde.
pode-se sempre atrasar o relógio.



bairro alto. madrugada
"see you next wednesday" - camilla engman

23 de janeiro de 2007

Brava Dança

Trailer de cinema do documentário «Brava Dança», de Jorge Pereirinha Pires e José Francisco Pinheiro (Portugal, 2006).
Trailer realizado por António Forte / Droid.

18 de janeiro de 2007



josé bandeira

17 de janeiro de 2007

11 de janeiro de 2007

paula, a grande

a minha cidade

ontem, numa curta viagem de metro vi um mupi com uma linda garota numa praia.
a imagem tinha a frase: sorria. está em espanha.
uau. estou em espanha.
ao meu lado uma rapariga lê um livro de paul auster na língua original.
no banco da frente duas asiáticas conversam (julgo eu) sobre o bebé que uma delas irá parir.
no banco ao lado e por toda a carruagem várias áfricas.
ainda tenho tempo de ver um indiano a sair no marquês.
parece que as castas jejuam.
abstinência total.
nem mais uma gota de vinho.

8 de janeiro de 2007

boa vida

há tipos com sorte.
só eu é que não participo nestas coisas.
a comissão de honra das sete maravilhas portuguesas vai andar pelo país a promover os 21 locais candidatos.
ver de perto os 21 monumentos e sítios mais bonitos do meu país e ainda comer e beber do melhor de cada região...
estou cheia de inveja.
queria esses 18 fins-de-semana para mim.
deve ser uma canseira. tss.

3 de janeiro de 2007

#&%!*

ainda a ressacar da malvadez deste mundo, não deixo de rir (ou chorar?) da perversidade da morte que saddam teve.
a morte teve requintes medievais, mas foi filmada com a melhor tecnologia dos telemóveis, acessível às altas patentes militares iraquianas.
são muitos séculos de distância entre os dois actos, o de matar e o de filmar.
não basta o horror de presenciar uma morte. é preciso filmá-la e divulgá-la.
está tudo no youtube.
e os púdicos de londres e da onu já vieram dizer que não se devia mostrar. o que não passar na tv (e agora no youtube) não existe.
medieval, claro.

1 de janeiro de 2007

31 de dezembro de 2006

horror

não sei o que revolta mais.
saber que há mães que espancam as filhas até à morte por estas serem traquinas.
ou saber que há ditadores que levam outros ditadores à morte.
qual dos dois é mais medieval?
e este? não merece castigo?

28 de dezembro de 2006

Can you spot the fake smile?


Aqui as amigas e os amigos podem testar a capacidade para detectar os afamados sorrisos amarelos.
Mais uma cortesia BBC

100 coisas que aprendemos este ano

a bbc, sempre em nome do serviço público, apresenta uma centena de factos e revelações - alguns absolutamente irrelevantes - que marcaram 2006.
entre os melhores estão o 3, o 12, o 60 e o 100.
tudo aqui.


e é verdade. o ovo apareceu primeiro que a galinha.
claro.

só faltava isto

segundo a EFE:
um estudo britânico revela que a actividade física, em particular as tarefas domésticas, contribuem para reduzir o risco de cancro da mama nas mulheres.

"Los investigadores analizaron el efecto de actividades como el trabajo, las tareas domésticas y el ocio en el desarrollo de la
enfermedad.

los investigadores descubrieron que emplear el tiempo de forma regular en las labores del hogar contribuía a reducir sigfinificativamente el riesgo de cáncer en ambos casos.

"las formas moderadas de actividad física, como las tareas domésticas, pueden ser más importantes en la reducción del riesgo de cáncer en las mujeres europeas que modalidades de ejercicio recreativo más intensas pero menos frecuentes".

sinceramente.
já vi provas menos explícitas de machismo.

26 de dezembro de 2006

( )


do natal o que eu gosto é do dia seguinte, em que todos estão com cara de filhós amassada, entorpecidos e a ressacar da festança.
há pouca vontade de mandar trabalhar.
há papel de embrulho para reciclar, cházinho para beber.
há ainda algumas nozes e pinhões à espera de serem cuidadosamente apanhadas com as pontas dos dedos daquele prato bonito da mãe.
conto os dias para que chegue o próximo ano.
todos os anos é assim.
este ano foi maravilhoso, mas já estou farta dele.

22 de dezembro de 2006

tic tac


nunca mais chega 02 de Janeiro.

20 de dezembro de 2006

é aproveitar

parece que o pai natal vai estar na galeria zé dos bois.

A "Ler Devagar" vai saldar o seu stock - mais de 10 mil livros - nas instalações da ZDB até 20 de Janeiro.
Os preços variam entre os 50 cêntimos e os dez euros.
Depois disto, a ler devagar muda-se para a Rua da Rosa.

quem é amigo, quem é?

19 de dezembro de 2006

divertimento com um sinal ortográfico

enquanto as queridas castas estão a cortar a fruta cristalizada em cubinhos e a descascar pinhões, avelãs, amêndoas e afins (quero essas nozes sem pele, einh?) para o bolo-rei, aqui a palhacita deixa um poema visual do genial génio alexandre o´neill:


"desafio um francês a possuir-me
quando estou, por exemplo, em coração"

18 de dezembro de 2006



como as castas estão de certeza entretidas a aprender a fazer bolo-rei (sem brinde) aqui fica o meu bem haja de boas festas e que 2007 tenha boas colheitas.

17 de dezembro de 2006

sunday morning



Sunday morning, praise the dawning
Its just a restless feeling by my side
Early dawning, sunday morning
Its just the wasted years so close behind

Watch out, the worlds behind you
Theres always someone around you who will call
Its nothing at all

Sunday morning and Im falling
Ive got a feeling I dont want to know
Early dawning, sunday morning
Its all the streets you crossed, not so long ago

Watch out, the worlds behind you
Theres always someone around you who will call
Its nothing at all

Watch out, the worlds behind you
Theres always someone around you who will call
Its nothing at all

Sunday morning
Sunday morning
Sunday morning

12 de dezembro de 2006

hoje estou assim


um bocado dispersa.

8 de dezembro de 2006

conjugar os verbos ir e andar no autocarro


duas senhoras pelos cinquenta:
- olá, está boazinha? como é que vai?
- ah, cá vou indo.
silêncio.
- pois... o que é preciso é ir andando.
novo silêncio.

5 de dezembro de 2006

Violência infantil

Há dias passei pela minha antiga escola primária e lembrei-me. Foi na primeira classe, numa excursão a umas grutas (devem ser as mesmas grutas a que vocês foram :o)). Lá dentro havia um poço onde se deitavam moedas em troca de um desejo. Aquilo fez muito sucesso entre as garotas. Eu já não me lembro o que desejei, mas deve ter sido uma coisa muito importante.
Pois a Sandra, miúda saída da casca, tirou-me a moeda da mão e pediu ela o desejo. Lembro-me da maneira como olhei para ela em silêncio, estupefacta, então aquilo fazia-se? Pus-lhe a mão na cara e empurrei-a com tanta força que ela caiu para trás e bateu com a cabeça na rocha. Lembro-me de a ver a chorar e a queixar-se com dores mas na altura fiquei dividida entre o "ai que é que eu fiz" e "ela merecia mais". Entretanto, a professora apareceu, viu-a no chão, ouviu as minhas razões e "resolveu" o problema com uma chapada em cada uma.

4 de dezembro de 2006




padres da esquerda:
"eh pá, ouvi dizer que há por aí um blogue de castas. chama-se míldio. já ouviste falar?".
"já, mas estou desolado, pá. parece que há uma casta que está em falta".

padres da direita:
"tu já viste a nossa vida? vamos todos os dias ao blogue e ela não aparece?"
"valha-me deus, já fiz tantas promessas para ela aparecer. só falta deixar de beber".

30 de novembro de 2006

Diabos ou santinhos?

Que tal testarem o vosso nível de "deboche" aqui?

O gato abre a janela e vôa toda a noite


Na impossibilidade de abrir a janela e voar a noite toda, o meu gato mia do outro lado da porta e eu tenho que decidir se vou dormir ou se vou para a sala dar-lhe atenção. Até o gato quer colo! E eu lembro-me do Stig Dagerman: “a nossa necessidade de consolo é impossível de satisfazer”. Por isso, mais vale ir dormir.






O quadro é do João Vieira e pertence a uma colecção privada qualquer, mas podem sempre tentar comprá-lo e surpreender-me este Natal.

29 de novembro de 2006

importa-se de repetir?



deixo já aqui expresso que este não é um post facilitista.
ontem recebi fotos maravilhosas sobre o meu país. todas de um país um bocado parolo.
mas esta não me saía da cabeça.
é tão ridícula, tão kitsch que não consigo vê-la como um acto tolo de algum engraçadinho.
é quase uma foto artística sobre portugal. uma instalação de arte.
imagino-a num formato 2 x 3 metros numa galeria.
ou mesmo em três dimensões, um galito empalhado ou de barro com uma trela ligada a uma casota de cão.
uma coisa ao jeito da joana vasconcelos, que cobriu cãezinhos de loiça em renda, fez um lustre gigante com tampões e encheu uma trotineta com nossas senhoras florescentes.

28 de novembro de 2006

hoje estou assim



com flowers in my mind
mais aqui.

26 de novembro de 2006

+



ama como a estrada começa.





um poema de cesariny que a touriga me apresentou

22 de novembro de 2006

Que bonito!

Não dizia palavras,
Aproximava somente um corpo interrogante,
Porque ignorava que o desejo é uma pergunta
Cuja resposta não existe,
Uma folha cujo ramo não existe,
Um mundo cujo céu não existe.

Entre os ossos a angústia abre caminho,
Ergue-se pelas veias
Até abrir na pele
Jorros de sonho
Feitos carne interrogando as nuvens.

Um contacto ao passar,
Um fugidio olhar no meio das sombras,
Bastam para que o corpo se abra em dois,
Ávido de receber em si mesmo
Outro corpo que sonhe;
Metade e metade, sonho e sonho, carne e carne,
Iguais em figura, iguais em amor, iguais em desejo.
Embora seja só uma esperança,
Porque o desejo é uma pergunta cuja resposta ninguém sabe.

Luis Cernuda

uh la la

21 de novembro de 2006

oh beckett


um post para a touriga nacional, a ausente das ausentes do míldio.
ausente, mas presente.

Benditas fotocópias

A inspecção-geral das actividades culturais andou à caça de fotocópias ilegais nas universidades e encontrou milhares de livros copiados, sobretudo livros técnicos das áreas de Direito, Medicina e Enfermagem.
Acho que só lá para o terceiro ano é que me dei conta que fotocopiar livros inteiros constituía crime. E foi por isso que deixei de ir à reprografia? Não. A biblioteca tinha os livros necessários mas quase sempre requisitados. A livraria tinha-os disponíveis, mas a bolsa que recebia (de 17 mil escudos em 1993) chegava para o passe, almoço, jornais e ...fotocópias. Acho que durante os quatro anos do curso comprei menos de dez livros e esses dez livros devem ter custado umas dezenas de contos. Havia que gerir a situação.
Sobre esta realidade, imagino que idêntica à de milhares de estudantes mais de dez anos depois, a inspectora contactada pelo JN diz o seguinte:
"Os parques das faculdades estão cheios de automóveis". Só à estalada.

20 de novembro de 2006

r t p = raios te partam

fico doente com a programação da rtp.
eu sei que não devia deixar que estas coisas frívolas e estupidificantes me deixassem influenciar, mas é mais forte do que eu.
como é que é possível que aquelas cabeçinhas, pagas para pensar boa televisão, dedicam mais de duas horas a um programa da treta como "prós e contras", que muitas vezes não tem nem prós nem contras, e programam o cinema português para a madrugada?
pelo que vi da programação, parece que esta semana a rtp irá exibir alguns filmes do fonseca e costa, a propósito da estreia no cinema de "viúva rica solteira não fica".
ontem passou "kilas, o mau da fita", que é raríssimo passar na tv e, segundo consta, é dificil de arranjar uma cópia para exibição.
hoje passa "sem sombra de pecado".
passa às 01:45, porra.
isto é hora de passar cinema português?!
a mesma rtp (já nem falo na sic e na tvi que põe óptimas séries também ao começo da madrugada) programou para quarta-feira uma nova série de ficção - anatomia de grey - à mesma hora em que decorre na 2: a viciante série 24.
a rtp é concorrente da 2:?
serão cegos? "bomitam monelhos de cavelos"?

pronto, sinto-me um nada mais leve por ter partilhado isto.

só para lembrar

que a raparigada aqui do blogue não se alimenta só de vinho vindo do baguinho.

"Deve-se estar sempre embriagado.
Nada mais importa.
Para que o horrível fardo do tempo não vos pese sobre os ombros e vos faça pender para a terra, deveis embriagar-vos sem cessar.
Mas de quê?
De vinho, de poesia ou de virtude, à vossa escolha.
Mas embriagai-vos!
E se um dia, nos degraus de um palácio, na erva verde de uma valeta, na solidão baça do vosso quarto, acordardes, já sóbrios, perguntai ao vento, à onda, à estrela, à ave, ao relógio, a tudo o que foge, a tudo o que geme, a tudo o que rola, a tudo o que canta, a tudo o que fala, perguntai:
"Que horas são?"
E o vento, a onda, a estrela, a ave, o relógio, responder-vos-ão:
"São horas de vos embriagardes!".
Para que não sejais uns escravos martirizados do tempo, embriagai-vos sem cessar.
De vinho, de poesia ou de virtude, à vossa escolha".

charles baudelaire

pára tudo

segundo o ine, é esperada uma quebra da graduação alcoólica da colheita deste ano, porque as vindimas foram feitas com condições climatéricas adversas.
no entanto, as previsões continuam a apontar para uma produção de qualidade, de 6.786 mil hectolitros, abaixo dos 6.996 mil da campanha anterior.

17 de novembro de 2006

Faz-me confusão

Que para defender a despenalização do aborto até às dez semanas entre os partidários do "não" e ser pelo menos ouvida tenha que ressalvar primeiro uma série de coisas:
1- Dizer que sou contra o aborto
2 - Jurar que nunca fiz
3- Jurar que nunca faria
4 - Justificar que apenas defendo o direito de escolher
5 - Dizer que percebo o "não"
6 - Ser "moderada"

Se não fizer estas ressalvas todas, passo a ser:

1 - Defensora do assassínio de inocentes
2 - Suspeita de ter assassinado
3 - Suspeita de possível assassínio futuro
4 - Acusada de querer "liberalizar" o assassínio
5 - Para sempre pervertida que vai parar ao Inferno
6 - Radical

Ora, eu não me apetece ressalvar coisa nenhuma porque defendo que:

1- Ninguém, a não ser a mulher, tem absolutamente nada a ver com a decisão última de abortar
2 - Ninguém, a não ser eu, tem nada a ver se abortei ou não
3 - Ninguém, a não ser eu, tem nada a ver se abortaria ou não
4 - Dizer que defendo o direito de escolher é redundante
5 - Dizer que "percebo" quem defende o "não" é indiferente
6 - Não há direitos "radicais" e direitos "moderados", do que se trata é o reconhecimento legal de um direito

Por isso, acho que vou imprimir isto e andar sempre com uma cópia no bolso até ao dia do referendo. Da próxima vez que um partidário do "não" quiser discutir o assunto comigo, vai ter que ler o papelito primeiro. É que sinceramente, não há paciência.

16 de novembro de 2006

adoro este t i p o


como estou numa de revelar gostos pessoais, aqui vai:
adoro este gajo.
o da esquerda, claro.
parece que vai dar a voz ao "pálido", um ex-rato albino de laboratório que entra em "por água abaixo".
o filme de animação é uma parceria entre a dreamworks e a aardman (a do wallace and gromit).

e vai daí, gosto do bill nighy, mesmo com tentáculos.
agora, porque é que eu gosto dele, isso já não interessa nada, claro.

14 de novembro de 2006

a estalarem cinzentas na brasa

apeteceu-me este título porque as castanhas rimam com carlos do carmo.
mas também podia ser "um flash do quotidiano".
rapaz bem posto, óculos escuros, ténis da moda, vende quentes e boas à porta do colombo num bancada como todas as outras e debaixo de um guarda-sol.
tudo normal ate aqui.
mas,
a banca das castanhas, toda vermelha pai-natal, diz: "momentos vodafone".
até o papel de enrolar em canudo é vermelho e diz "vodafone".
até a camisola do rapaz todo bem posto é vermelha e diz "vodafone".
será que pela compra das castanhas tenhos chamadas grátis?
hum?
vi isto, reparem bem, no dia em que a vodafone anuncia que:
nos primeiros seis meses deste ano, a empresa conseguiu 305 mil novos clientes, atingindo uma quota de mercado de novos clientes de 52 por cento.

now

5 de novembro de 2006

Dead Combo-Mujitos Summer (Live)

adoro estes tipos

3 de novembro de 2006

24 de outubro de 2006

i´m speechless

vejam ISTO, senhores e senhoras.

22 de outubro de 2006

importa-se de repetir?

parece que agora chamar cromo a alguém é o mesmo que o insultar de filho da puta ou cabrão.
estamos bem, estamos. tss, tss.

19 de outubro de 2006

É um facto científico que os neurónios se vão em grandes quantidades a cada dia que passa. Querem ver?

Fui ao teatro para me cultivar e posso dizer que valeu a pena.
O actor tinha uns pés lindíssimos. Uns pés de encher o olho. É impressão minha ou os homens raramente apresentam uns pés decentes? Houve outra coisa que me tocou naquela peça. Lá pelo meio o actor começou a dizer um poema do Beckett. Em inglês. E posso garantir que a palavra “open” nunca tinha sido assim proferida. Oppeen: o O é um murmúrio suave, o P é um sopro de cinza quente, o E as asas de uma borboleta colorida, o N…a vibração das cordas de uma harpa tocada num anfiteatro vazio.
Eu gosto muito de ir ao teatro. O teatro é uma coisa muito bonita. Todos os actores (the male ones) com pés bonitos deviam subir descalços ao palco. E todos deviam dizer a palavra “open” daquela maneira.

18 de outubro de 2006

Primeiros dias de Outono em Sintra


"Cortesia" Manuel de Almeida, Lusa

A publicidade que fazia falta

Com quem saíste, com quem bebeste, com quem falaste, com quem casaste, a quem mentiste, a quem roubaste, com quem sonhaste, com quem sofreste, quanto recebeste, a quem lixaste, com quem f*****, com quem gostaste? Estas e outras perguntas engraçadas disponíveis a partir de agora no seu telemóvel. Um serviço TNT, para respostas explosivas, para pessoas verdadeiras.

13 de outubro de 2006

o mais pequeno conto de fadas do mundo

Era uma vez um rapaz que perguntou a uma linda rapariga:
- Queres casar comigo?
Ela respondeu:
- Não!
E o rapaz viveu feliz para sempre, foi pescar, jogou futebol, papou resmas de gajas, visitou muitos lugares, estava sempre a sorrir e de bom humor, nunca lhe faltava dinheiro, bebia cerveja com os amigos sempre que estava com vontade e ninguém mandava nele.
A rapariga teve celulite, varizes, os peitos caíram e ficou sozinha.

fim?
alguém se chega a frente para acrescentar alguma coisa?

12 de outubro de 2006

"Sou portuguesa"

"Sou portuguesa", informa a mendiga num pequeno cartaz colocado estrategicamente junto do prato das esmolas. Quem desce as escadas do metropolitano do Marquês de Pombal (do lado da Alexandre Herculano) não pode deixar de estranhar esse pormenor de inovador marketing mendigueiro. Estou a imaginar a velhinha em pleno "brainstorming": "mas como é que eu saco mais umas àqueles burgueses?" Eu percebo. Com tanta concorrência pedincheira na cidade, é preciso adaptar a mensagem ao público alvo e com a crise que aí anda impõe-se alguma criatividade. Mas, no meu caso, os trocos não duram muito tempo nos bolsos. Sou, por assim dizer, o alvo ideal dos típicos mendigos da nossa praça. Não complico, não peço explicações. Um olhar de fome, verdadeiro ou fingido, um "ajude-me por favor" ou até uma simples mão estendida bastam. Por isso, não sei o que hei-de fazer em relação àquela mendiga que diz que é portuguesa. Será que é a minha moeda que ela quer? O que é que quer dizer com isso?!
Depois de umas noites mal dormidas a pensar neste assunto importantíssimo, cheguei a uma hipótese explicativa. "Então não querem lá ver a velha xenófoba a apelar ao racismo portuga?!" E decidi que do meu bolso não levava mais nada. Porque eu não sou esquisita mas tenho alguns limites. Só dias depois percebi o real alcance daquele "sou portuguesa" e fiquei com tanta pena da velha que só não chorei porque já não tinha trocos para os lenços de papel (foram todos direitinhos para o prato da mendiga). Já não lhe bastava ser pobre e velha, tinha que ter o azar supremo de ser pobre e velha e ter nascido em Portugal. Não há coração duro que resista, tem toda a minha solidariedade.

10 de outubro de 2006

um flash do subúrbio



uma procissão de velas passou na rua onde moro.
não tocaram os sinos nem houve rosmaninho e alecrim pelo chão.
mas a comandar a procissão ia um carro com um megafone ligado a umas colunas a debitar um pai-nosso-que-estais-no-céu.

8 de outubro de 2006

Sonhos molhados

O microfone a aparecer é que era escusado. Mas fora isso, tudo pode acontecer no filme “A senhora da água” que não parece estranho ou forçado. Logo ao início, torci o nariz. Então o gajo (o healer) mete-se dentro de água e vai por ali fora buscar o remédio sem lhe faltar o ar?! Ná... Mas, às tantas, o filme embala-me numa história de encantar e o céu podia cair-lhes em cima que eu já ia achar normal. Ou seja, eu sei que não pode ser, que na vida real não é assim, mas gosto de pensar que é ou que pode ser. E depois lembrei-me que era assim que me sentia quando ouvia as histórias de embalar ou de encantar contadas pelos meus mais velhos. A história da senhora da água (foi impressão minha ou ela começou por ser ruiva e no fim era loura?) acabou por ser acessória à verdadeira história de encantar do filme: o percurso do grupo de vizinhos que deu corpo ao sonho nocturno do realizador. E, como na maioria dos sonhos verdadeiros, lá estão as coisas do quotidiano à mistura com a satisfação de desejos inconfessáveis. Quem nunca teve vontade de deixar um irritante crítico de cinema à mercê de uma criatura raivosa de dentes aguçados que atire a primeira pedra!

5 de outubro de 2006

world press photo

porque este ano não vou ao ccb ver a world press photo, aqui ficam três fotos um bocadinho menos chocantes.

a primeira é de Shayne Robinson.
A young dancer exercises at the barre during a ballet class in Alexandra township outside Johannesburg, South Africa.

a segunda é de Asa Sjostrom.
Sixteen-year-old dance students go through their exercises at the Theater of Opera and Ballet School in Chisinau, Moldova. Many young people see ballet as a means to wealth and foreign travel.

a terceira é de Michael Wirtz.
An elderly woman takes a closer look at a ‘Mae West Lips Sofa' and a ‘Lobster Telephone' at the Salvador Dalí exhibition at the Philadelphia Museum of Art in the USA in February.

parece que as fotos estão todas aqui.

3 de outubro de 2006

querido vítor sobral

eu já te tinha nas minhas graças, mas agora estás nos píncaros.
Segundo a imprensa de hoje, foste a espanha e ganhaste um concurso mundial de receitas de arroz com um arroz de cabidela, feito com as galinhas da tua mãe e polvilhado com carqueja.
Até tenho uma lágrima a querer aparecer e a boca a secar-me de desejo.
Que saudades do arroz de cabidela da minha avó feito numa panela de ferro de três pernas e num lume de lenha.
parece que lhe estou a sentir o cheiro.
Um avé para ti querido sobral.

beat da caixa de esmolas

há anos que não o via.
lembro-me perfeitamente dos olhos baços e cobertos por um manto branco, do corpo magro e curvado. mas não me recordo do que ele fazia para conquistar uns trocos.
voltei a vê-lo esta semana e lá estavam os mesmo olhos baços.
mas o que me chamou a atenção - a mim e a toda a gente que estava na carruagem - foi o ritmo com que ele batia com um pedaço de metal na caixa de esmolas de madeira e no pau de vassoura que servia de guia.
pum-tchi-ca-pum-pum-ca-pum-tchi-ca-pum.
e de tantas vezes dizer a mesma frase, aquilo já saía em jeito de rap. era qualquer coisa do género:
há algum cavalheiro ou senhora que tenha a possibilidade de me auxiliar.
pum-tchi-ca-pum-pum-pum-tchi-ca-pum-pum-pum.

1 de outubro de 2006

ai catarina...

com o ar a encher-se do cheiro a água fria, uma memória gustativa e olfativa a guardar no baú do Verão, ao pé dos búzios e da pedra bonita daquela praia: Catarina - Branco, da península de Setúbal.
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