12 de janeiro de 2007

Da memória do corpo

O Ibérico mostrava-se compreensivo, e mesmo atento, para não assustar a re-estreante.
Deixou-se afagar, cheirou-a, nem se empinou quando ela, desajeitada de muitos anos sem gestos como estes, lhe bateu na garupa com a perna porque não teve a força necessária.
Depois passou-se ao passo, à lembrança de regras, como é que?, ao buraquinho no estômago e cenho franzido quando a memória não era suficientemente rápida, ao susto quando a reacção era inesperada, até que o corpo percebeu que com a cabeça a rasto não ia lado nenhum e a ignorou, tratando ele de recriar todos os gestos e movimentos.
O Ibério já trotava, o corpo equilibrava-se, conduzia, comunicava sozinho, a cabeça percebeu que não era para ali chamada e amuou num canto e só acordou a meio do galope, quando a voz não aguentou mais e desatou a rir alto, num som cheio que enchia os olhos e fazia sorrir o instrutor, que acreditou primeiro do que ela que há gestos que, definitivamente, não se esquecem.

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